quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Go-bots: os OUTROS robôs transformáveis dos anos 80.

Alguns Go-bot comuns.
Existe uma linha de brinquedos da qual eu pessoalmente tenho que falar. Uma linha que marcou e definiu o mercado de brinquedos dos anos 80. Uma linha que trazia duas raças de robôs de um planeta morto, trazendo sua guerra milenar para o planeta terra, disfarçando-se entre os veículos terrestres.

Falo é claro de Transformers O Desafio dos Go-Bots, da Tonka. Em termos de premissa, era exatamente a mesma coisa que o seu concorrente mais bem sucedido. Curiosamente, a linha, que reaproveitava moldes de Machine Robo Cronos, da POPY, uma subsidiária da Bandai, foi lançada alguns meses antes de Transformers (embora a ficção de Transformers e o desenho antecedessem a ficção de Go-bots).

Go-Bots é uma das linhas mais injustiçadas da história dos brinquedos. Sim, eles são uase a mesma coisa que Transformers, e sim, eles são menores e mais simples. Mas o grau de ódio desferido contra os Go-bots não tem igual nesse planeta. Qualquer discussão sobre o tema, e nerds revoltados começam a falar como se os coitados fossem a segunda vinda da peste.

O Desenho

Nossos heróis. 
A trama era basicamente a mesma dos seus concorrentes: o planeta Cybetron Gobotron se encontrava destruído após milênios de guerra incessante entre os malignos Decepticons Renegados e os heróicos Autobots Guardiões. Exilados de seu mundo natal, os Transformers Go-Bots traziam sua guerra para a Terra, disfarçando-se entre os veículos locais. Enquanto os Renegados e seu líder Cy-Kill visavam dominar o planeta, os Guardiões comandados por Líder-Um protegiam a humanidade. Nada muito criativo - e não é como se o concorrente fosse um primor de originalidade. Outras linhas a época usavam a mesma premissa (nenhuma de forma tão descarada quanto Dinozaucers, que lamentavelmente não teve brinquedos exceto bizarramente no Brasil).

Transhumanismo: O cérebro orgânico de Crasher. 
Mas haviam diferenças notáveis. Enquanto os Transformers eram de fato formas de vida mecânicas, os Go-Bots eram os últimos remanescentes de uma civilização orgânica, devastada pela guerra. Milênios antes de sua chegada na Terra, após um desastre natural que ameaçou destruir o planeta, milhares de “Gobings” tiveram seus cérebros transplantados para corpos mecânicos pelo misterioso “Último engenheiro”, a última esperança de sua civilização. Infelizmente, essa tragédia serviu apenas como uma linha solta na história de origem - enquanto Go-bots trazia elementos de transhumanismo em sua narrativa, esses elementos eram puramente decorativos.

Embora a linha sofresse da mesma “síndrome de smurfette” que muitas séries da época (e até hoje), com uma representação mínima de personagens femininas, Go-bots lidou com esse aspecto melhor do que Transformers. Enquanto na série da Hasbro personagens femininas só apareceriam em seu segundo ano*, Go-bots contava com mulheres desde o princípio. Isso incluía a segunda em comando dos Renegados, a maníaca Crasher, e a batedora dos guardiões, Small Foot.

E punhos que soltam lasers. 
A série foi produzida pela Hannah Barbera, e contava com uma animação tão oscilante quanto a média da época: ora a animação era razoável, ora era sofrível. Mas ao contrário das produções da Rankin Bass e da Sunbow, o método era o clássico da Hannah Barbera: animações recicladas, fundos em loop, efeitos sonoros como substituto para animação de fato...* Continuidade era inexistente, como era o padrão nos anos 80. Como os brinquedos não tinham acessórios, os robôs disparavam lasers dos punhos. A série durou apenas dois anos, cancelada após 65 episódios - uma única temporada de sindicação.







Os brinquedos
Jeeper Creeper, um Go-Bot normal.
Lançados em 1983, os bonecos de Go-bots eram consideravelmente mais simples que a parte famosa de sua contraparte da Hasbro. De tamanho similar aos minibots de Transformers, a linha original contava com mais partes em metal e transformações mais complexas do que Transformers do mesmo tamanho - mas eram muito limitados em comparação com os bonecos maiores da concorrência - com os quais eram inevitavelmente comparados.

Cy Kill, outro go-bot básico. 
Articulação era quase inexistente - normalmente restrita aos braços - e os moldes contavam com poucos detalhes. Como era padrão na época, detalhe tecnológico era dado primariamente por adesivos e aplicações de tinta, parecendo muito mais com “o painel do peito do Darth Vader” do que partes robóticas. Há de se lembrar que a comparação justa dos Go-bots não é com os bonecos maiores de Transformers, mas sim com os minibots. Derivados da linha 600 de Machine Robo (assim chamada porque cada boneco custava 600 ienes), os Go-bots originais eram bonecos econômicos e simples, mas que não pecavam em termos de forma de veículo.

Monsterous, um combiner Go-bot.
Em alguns aspectos, os Gobots eram superiores aos seus concorrentes mais bem sucedidos. Enquanto os combiners e vários bonecos maiores de transformers precisavam de peças separadas para formar a cabeça, os punhos e os pés, conjuntos como Puzzler e Monsterous (Devil Satan Six, no Japão) tinham todas as partes embutidas. A dupla de combiners Grungy e Courageous, por sua vez, serviam como veículos para os bonecos menores.  Se por um lado os Go-bots careciam em acessórios, por outro havia maior integração entre eles.

Bug Bite, um Super Go-bot. E não,
não é um plágio do Bumblebee:
ele saiu no japão em 1983. 
O segundo ano da linha viu o lançamento de alguns bonecos maiores, para competir justamente com os Transformers, os Super Go-Bots. Alguns destes eram moldes novos, como Spay-C, Raizor, Baron von Joy e Bug Bite,com mais detalhes, articulações e transformações mais complexas do que os bonecos menores. Outros eram versões aumentadas em plástico dos bonecos menores - o que os faziam parecer piores em comparação com o restante dos "super go-bots".
A linha também contou com figuras centradas em gimmicks: Os Go-bot Launchers eram duplas de plataforma e veículo voador que se combinavam em um robô só (derivados de outra sublinha de Machine Robo). Ro-Gun era uma arma de espoleta. Os Boomers disparavam bolas. Water Pistol era uma pistola de água. O centro de comando dos Guardiões era em si um robô (e um veículo). Como qualquer linha, teve sua dose de figuras promocionais.


E Transformers jamais lançou algo tão
Glorioso quanto Tux.
Go-bots fazia um uso muito mais intenso e muito mais envolvido das partes do veículo. Várias figuras tinham vestígios de membros, alguns bonecos tinham parabrisas inteiros servindo como a cabeça, e a maioria das transformações tinham apenas três ou quatro passos.A filosofia de design da linha era mais perceptível nos Super Go-Bots. Essa aparente preguiça é resultado de uma mentalidade totalmente diferente dos Transformers, e que demonstra a engenhosidade dos designers da POPY.
Destroyer, o melhor representante da
filosofia de design de Go-bots.

Enquanto a linha da Takara e da Hasbro buscava um robô que virava um veículo, Go-bots pensava diferente: eram veículos que viravam robôs, e isso resultava na estranheza visual da linha, sintetizada em um único design: Destroyer, um tanque renegado que usava a torre do canhão como a cabeça do robô. É fácil desmerecer os Gobots como sendo "preguiçosos" e "substitutos baratos para transformers", mas a linha tinha uma mentalidade diferente, e enquanto a Hasbro bebia de múltiplas linhas de brinquedos pra criar o seu catalogo, a Tonka contava apenas com Machine Robo, o que deu coesão visual para Go-bots.


Alguns moldes de Go-bots foram lançados no Brasil pela Glasslite sob o nome de Mutante. Vários destes foram lançados em cores diferentes das originais (como ocorreu com muitos brinquedos à época), e a linha depois foi assumida pela Mimo, hoje uma gigante do ramo de bonecos “Jumbo”.

Houveram também oito model kits de Go-bots, com designs radicalmente diferentes da linha normal. Produzidos pela Monogram, dois dos kits (Líder Um e Cy-kill) eram reaproveitados de modelos para o anime Genesis Climber Mospeada, lançado nos EUA como parte de Robotech, junto com Macross e Southern Cross. Os kits eram completamente transformáveis e melhor articulados que os bonecos normais, mas não pareciam em nada com suas versões animadas. Os outros seis kits eram menos detalhados e menos articulados que os bonecos normais de seus personagens.

Os modelos pequenos eram disformes.

A batalha dos Rock Lords.

Em 1986, a Tonka e a Hannah-Barbera tentaram injetar nova vida nos Go-Bots com uma linha nova e um filme, A Batalha dos Rock Lords. O filme introduzia novos personagens, os heróicos Rock Lords liderados por Boulder e os malignos Rock Lords liderados por Magmar. Junto aos dois grupos estavam Jewel Lords, que viravam pedras preciosas, e Fossil Lords (você advinhou: fósseis).

A tentativa fracassou duplamente. O filme era essencialmente um episódio longo de Go-Bots com uma história insignificante e um monte de “encheção de linguiça” para estender a duração. Para piorar, a animação mostrava os heróicos Rock Lords sendo derrotados repetidas vezes e precisando da ajuda dos brinquedos velhos para “salvar o dia”, o que não fez muito para convencer as crianças de que aqueles eram bonecos “legais”. Grande parte do sucesso de uma linha de brinquedos está nos personagens, e quando a linha nova depende da velha para se safar...

Mas a proposta dos bonecos em si foi seu maior problema. Enquanto Transformers começava sua decadência com Headmasters, He-man entrava na era mais insana de sua coleção, os G.I. Joes entravam no reino da ficção científica e o mercado se entupia de linhas das mais variadas, os Rock Lords eram bonecos semi articulados que viravam... pedras. Reaproveitados da linha Ganseki Chojin, os Rock Lords eram maiores e mais detalhados que os Go-Bots, e contavam com acessórios, veículos e animais (os “Narlies”). Mas isso era pouco para compensar o fato de que eles viravam pedras.

A parte lamentável disso é que os Rock Lords contavam com um grau de complexidade que se fazia ausente nas duas linhas (Transformers e Go-bots). Várias figuras contavam com todas as articulações "essenciais" (ombros, cotovelos, joelhos e quadris), mas tudo isso servia para uma... Pedra. Ainda é melhor do que os Infaceables, no entanto (um dia vocês verão o horror que são os Infaceables). 

O fim dos Go-bots

Em 1991, a Hasbro adquiriu a Tonka, e com a acquisição os Go-bots desapareceram “de vez”. A linha já havia sido cancelada em 1987, após o fracasso do filme dos Rock Lords. Como os moldes pertenciam a Bandai, Go-bots se tornou uma linha insustentável: por um lado os nomes e a ficção pertenciam a Hasbro, por outro os designs eram da Bandai.

Isso não impediu a Hasbro de reaproveitar os nomes em linhas de Transformers, começando com Transformers Go-Bots em 1995 - uma linha de bonecos menores em escala 1:64 para concorrer com os carros de Hot Wheels e Matchbox. Em 2002, o nome serviu para uma linha de Transformers voltada para crianças menores, Playskool Go-Bots. Mas a absorção de Go-Bots por Transformers se completou em 2004, com o lançamento do pack G1 Go-bots pela Takara, um conjunto de redecos dos minibots de Transformers como personagens de Go-bots, que após um cataclisma dimensional viajaram para a realidade de Transformers. Com esse lançamento, o antes principal competidor virava parte do multiverso de Transformers.

Infelizmente, a Hasbro não demonstrou nenhum interesse em fazer novos designs para os personagens de Go-bots, e embora a Bandai tenha mantido a linha Machine Robo viva, não houve qualquer tentativa de atualizar os moldes velhos. Alguns deles foram relançados na linha Machine Robo Rescue, em 2003 - com pouquíssimas mudanças, como braços mais detalhados e pinos para combinação com os robôs menores da linha. Hoje, a linha vive como Machine Robo Mugenbine, um misto de brinquedo de construção e robôs transformáveis.

Mugenbine tem um potencial criativo imenso - se você
tiver dezenas de sets para usar. 


**apesar da intenção de Bob Budiansky de incluir mulheres cybertronianas desde o início



**Transformers, por sua vez, contava com animação terceirizada para a Toei, que re-terceirizou para outros estúdios,  e roteiros ainda mais tolos que os de Go-bots. A animação podia ser as vezes melhor, mas não significa que algum dos desenhos fosse menos ruim que o outro. 


5 comentários:

  1. kkkkkk que massa eu era fissurado por esses robozinhos, e inclusive tive esse jipezinho da foto (além de vários outros). Eu lembro que gostava muito da propaganda da linha de brinquedos MUTANTE, que passava na TV. Agora, procurando amostras do desenho no youtube, fiquei pasmo ao ver como a animação é ruim, mas ruim que dói!!! Acho que só assisti algumas cenas do desenho do Gobots, mas podia jurar que não era tão horrorosa assim. Mais uma prova que a memória nos engana, principalmente as lembranças de infância. Mas com certeza valeu pra relembrar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sinceramente, eu acho que Go-Bots foi uma linha muito injustiçada. Sim, o desenho era uma caca (como a maioria dos comerciais de meia hora: tente reve-los hoje, e me diga se prestam. Criança se contenta com pouco), mas os brinquedos? Honestamente, muitos deles estão beeem acima de Transformers equivalentes, e é uma pena que tenham sido tão fracassados por "não serem transformers". Tendo dito isso, me entristece não ter nem um único Go-bot na minha coleção. Quase comprei um Monsterous usado, mas alguém comprou antes de mim. Quem sabe um dia.

      Excluir
    2. E bom saber que pude reavivar memórias de infância ^^

      Excluir
  2. "Meu Megatron vira uma pistola!"
    "Meu Cy-Kill vira uma moto! E o seu, Charlie Brown?"
    "O meu Rock Lord vira... uma pedra."

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ao menos nenhum Rock Lord tinha partes... sugestivas devido a transformação. E acho que eles davam bons projéteis.

      Excluir