quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A insanidade bombada de He-man e os mestres do universo

Os anos 80 foram uma fonte interminável de linhas de brinquedos absolutamente bizarras, e acompanhando essas linhas de brinquedos memoráveis, estavam desenhos igualmente estranhos. Mas nada é mais emblemático da relação promíscua de animação e brinquedos do que He-Man e os Mestres do Universo.

Criada pela Mattel em 1982, a linha de brinquedos de He-Man e os Mestres do Universo surgiu como mais uma das tentativas da empresa de se recuperar de um dos seus maiores erros: ter recusado a proposta de George Lucas para produzirem os brinquedos de Star Wars. A ideia para o bárbaro bombadão foi de Roger Sweet.

As três faces da loucura
Sweet percebeu duas coisas essenciais: uma era que a linha tinha que ter identidade própria (e não repetir o erro da tentativa anterior da Mattel, Big Jim, e copiar a concorrência) e a outra é que ela teria que ser simples. Com essas coisas em mente, e inspirado por arte de Frank Frazetta e histórias de Conan, o Bárbaro, Sweet produziu três protótipos para o “He-Man”: um bárbaro, um soldado cibernético e um astronauta.

O Bárbaro ganhou - e sua similaridade com Conan foi tamanha que os detentores de direitos sobre a obra processaram a Mattel; em 1980, a empresa havia firmado um contrato para lançar bonecos do filme do cimério, e cancelado o contrato em cima da hora, apenas para lançar um boneco parrudo que parecia muito um Conan loiro.

A trama era simples: de um lado os “Mestres do Universo”, liderados por He-Man, e do outro os Guerreiros do Mal, liderados por Skeletor (Esqueleto, no Brasil). Nas primeiras histórias, disponibilizadas junto com os bonecos e escritas em parceria com a DC Comics, as duas facções batalhavam em uma terra pós apocalíptica para juntar as duas metades da Espada do Poder e proteger ou conquistar o Castelo de Grayskull. Nessa micro continuidade, o bárbaro herói era um homem das cavernas em um mundo arruinado (muito similar ao clássico de Jack Kirby, Kamandi), e essa versão da história explica porque os bonecos de Skeletor e He-Man vinham cada um com uma espada do poder "pela metade".

A simplicidade e a bizarrice

O boneco padrão da linha:
acocorado, disforme, fazendo
joinha.
Os bonecos “básicos” do He-Man eram bastante simples: um corpo extremamente musculoso de tanga, braços e pernas desproporcionais e uma cabeça grande demais para o corpo. Articulação era restrita aos ombros, pescoço e quadris. Os joelhos e cotovelos estavam permanentemente dobrados (o que fazia parecer que eles estavam indo ao banheiro), e a cintura contava com um elástico para um “soco poderoso”. Uma mão era aberta para segurar acessórios, e a outra era completamente espalmada (o que faz do “soco poderoso” algo mais perto de um “tapa avassalador”).  

No entanto, a partir dessa estrutura básica He-man trouxe alguns dos bonecos mais bizarros já vistos pelos olhos humanos. Snout Spout tinha uma cabeça de elefante e esguichava água. Stinkor fedia. Moss-man era coberto de musgo. Mekaneck tinha um pescoço que esticava. Man-e-faces tinha rostos alternativos. Roboto e Mandibula tinham braços alternativos. Rio Blast abria em meio zilhão de armas. E assim vai: o segredo de He-man era uma forma estranha de simplicidade. Simplicidade em que cada boneco tinha uma coisa para fazer, a partir de uma base em comum.

Moss-man tinha cheiro de pinho. 

Roboto: "mecanismos internos" e membros intercambiáveis

Só eu que acho ele parecido com um Chuck Norris pré barba?

Extendar, e a habilidade de se esticar
Leech: o poder das ventosas
Esse boneco fede. sério.


As coisas ficaram ainda mais estranhos quando a linha passou a sair desse padrão base. Dragstor tinha uma roda no peito (que permitia que ele “corresse como um carro”). Twistoid e Rotar eram essencialmente piões. Blast-Attak explodia. Modulok era feito de 22 peças intercambiáveis (para assumir formas diferentes). Rokkon e Stonedar viravam pedras. Grizzlor era peludo. A insanidade não tinha fim. Conforme a linha se expandia, o mesmo acontecia com o número de facções: Skeletor foi "destronado" como o vilão principal por Hordak, e o mesmo foi tomado da posição por King Hiss, e ao final da linha, os "mestres do universo" tinham que lidar com os guerreiros do mal, a horda maligna e os homens serpente.

Dragstor, o homem moto. 

Grizzlor, ou: "colei membros num tribble".

King Hiss, desprovido do seu disfarce humano.

Mantenna (os olhos "saltam")

Modulok, ou "o que diabos eu ganhei?"


Um dos mais famosos playsets dos anos 80. 
A linha contou também com veículos, montarias (mais notórias, Gato Guerreiro e Panthor, as montarias do He-Man e do Skeletor, respectivamente, criadas a partir de um molde para uma linha de safari), criaturas, gigantes e playsets (um dos quais, o Castelo de Grayskull, me trás lembranças muito pessoais envolvendo cair do sofá). Poucas linhas providenciaram tanta variedade quanto He-man, ao mesmo tempo que traziam bonecos que faziam tão pouco. Para dar um exemplo, as montarias e o boneco Ram-Man contavam com zero pontos de articulação.

Do plástico para a TV

Como toda boa linha de brinquedos dos anos 80, He-Man contou com uma série animada - uma das primeiras do gênero. Produzida pela Filmation, a série animada expandiu o personagem do He-Man: ele agora era Princípe Adam, o aparvalhado e fresco herdeiro do trono de Etérnia, que ao erguer a espada do poder e gritar “EU TENHO A FORÇA”, se transformava no herói mais poderoso de todos, He-Man.

Embora tivesse roteiros de futuros notáveis como J. Michael Straczynski ( Babylon 5), Paul Dini (Batman the Animated Series), David Wise (de Real Ghostbusters e Tartarugas Ninja) e Larry DiTillio (Beast Wars), a série era o lixo barato típico da época. Com animação limitada e orçamento tão baixo que as duas formas de He-Man eram idênticas salvo pelas roupas (o que levanta a pergunta de como ninguém notava que o principe Adam era o He-Man), o desenho inovou em um aspecto: pela primeira vez em anos, o herói de uma série animada americana podia de fato bater em alguém - mas ainda assim não podia usar a espada como uma espada. Para “compensar” a violência, cada episódio se encerrava com uma “moral da história”.



Os designs para a série nova continuavam tão... sugestivos
quanto na original. 
He-Man foi um gigante a sua época. com 130 episódios em duas temporadas, a série original foi exibida repetidas vezes de 1982 à 1990, recebendo uma continuação (As novas aventuras de He-Man) em 1990, onde Adam e Skeletor eram transportado para um mundo futurista, e um filme em 1987, com Dolph Lundgren no papel principal. Há sinais de que o filme (desastroso) tivesse sido pensado inicialmente como uma adaptação de outra sério, o Quarto Mundo, de Jack Kirby. Não que He-Man já não tivesse doses elevadas de Kirbosidade (e os quadrinhos publicados desde 2012 parecem buscar reafirmar a inspiração da série no mestre dos quadrinhos).

Não mais disforme.
Em 2002 houve uma tentativa de recriar He-Man, com sucesso limitado. Na nova série, Skeletor era o meio-irmão do Rei Randor, pai do príncipe Adam. A linha contou também com novos bonecos, um bocado menos deformados que os originais (mas igualmente centrados em gimmicks de funcionalidade duvidosa). Sinceramente, a série de 2002 é talvez a melhor maneira de se acompanhar He-man: a animação e os roteiros são bons para a época, o conjunto é mais coeso que na série original, e a premissa de Adam e He-man serem vistos como pessoas distintas faz muito mais sentido quando He-man parece ter o triplo do tamanho do príncipe.

O Exemplo do trabalho da Four Horsemen: Merman.
Por sua vez, a linha clássica teve um revival modernizado em 2008, através do estúdio Four Horsemen, que tem produzido bonecos modernizados de He-Man, com designs extremamente detalhados (e sem as proporções bizarras do original). A linha continua contando com novos lançamentos, apesar de ser distribuída exclusivamente pela loja online da Mattel. Com o nome Masters of the Universe Classics, a coleção aprofundou o background de vários personagens, concretizou várias artes conceituais abandonadas e oficializou certos redecos, como Wun-darr, o He-man moreno promocional de uma marca de pão. (Ele vem um com um pão!!!!).

She-ra: uma linha de ação para meninas.
He-Man também gerou um spin-off, She-Ra, A princesa do Poder, em 1985. O spin-off centrado na irmã gemea de Adam, princesa Adora, contou com 93 episódios, mas nunca atingiu a mesma popularidade do primo. A linha era orientada para meninas, uma das raras linhas para esse público à época que não era centrada em moda e relacionamentos. Os bonecos de She-Ra contavam com moldes menos disformes que os de He-Man, cabelos “de verdade” e acessórios em tecido - mas não eram compatíveis com a linha original.



Todas as imagens de figuras são de He-man.org. Agora fiquem com o mais "infame" vídeo do He-man:



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