terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Tailgate e seus dois amores

Yep...
Cyclonus, Tailgate e Getaway: um
triangulo amoroso a moda cybertroniana.
Nós jogamos contra a vida, e perdemos.


Quem me acompanha há algum tempo já deve ter notado que eu adoro Transformers. Embora a ficção da franquia seja de forma geral fraca e muito boba, os quadrinhos da IDW tem desde 2009 demonstrado que dá sim pra fazer boa literatura a partir de uma linha de brinquedos. E é desse improvável material que James Roberts usa para tecer, entre tantas subtração,  uma longa narrativa sobre relacionamentos abusivos e manipulação emocional.


Falo é claro do triângulo amoroso Tailgate/Cyclonus/Getaway, em More Than Meets the eye. Relações amorosas já haviam sido abordadas antes no mesmo título (como o casal Chromedome e Rewind, os relacionamentos no passado de ambos, as motivações trágicas de Brainstorm, e uma insinuação não tão sutil entre Orion Pax e o senador Shockwave), mas a Trindade se destaca por vários motivos.


Com essa linha de trama em particular, James Roberts abordou um aspecto crucial de relacionamentos que não era de se esperar em um quadrinho sobre robôs-que-viram-coisas. As maneiras que relacionamentos impactam na vida de alguém já tinham sido discutidas na vida de Domey e Rewind - em particular, o quanto a perda afetava alguém, como relacionamentos tem seus altos e baixos, e como o amor pode evitar que um ciclo auto destrutivo. Desta vez, no entanto, o foco era como relacionamentos podem ser tóxicos. E como o amor pode ser uma ferramenta cruel para manipulação.


Um inocente entre dois canalhas


DEDO NA CABEÇA
Tailgate, sendo... Tailgate
Vamos começar pelas partes envolvidas. Introduzido na mini-série Revelation,  Cyclonus é uma relíquia de uma era distante, um veterano da “era dourada” de Cybertron. Pintando a si mesmo como um guerreiro-filósofo, Cyclonus sonhava com uma nova ordem cybertroniana em um universo caótico - esperando que um mundo ordenado desse estabilidade a sua própria mente perturbada e violenta. Um dos sobreviventes do “universo morto”, Cyclonus é odiado por todos a bordo da Lost Light, por todas as vidas que tirou quando servia sob Galvatron. A única exceção é seu completo oposto e amor improvável: o pequeno e inofensivo Tailgate, introduzido em More Than Meets the Eye #1. Aos seis milhões de anos, Tailgate é uma relíquia do passado, mas ao contrário do cínico e anti-social Cyclonus, ele é puramente inocente, tendo vivido meras duas semanas antes de perder a consciência por eras a fim, fingindo uma história grandiosa e heróica para esconder o fato que ele não viveu. Já Getaway da Incursão de Corcapsia nos foi introduzido no arco “Remain in the Light” (MtMtE #17-22). Um agente do “Bureau diplomático” (um belo eufemismo para “serviço secreto”), o artista de fugas Getaway é tudo que Cyclonus não é: carismático, carinhoso, emotivo e dedicado a fazer o relacionamento “dar certo”.


OUCH!
Qualquer semelhança com Hank Pym é coincidência. 
Ao longo da “primeira temporada” de MtmtE, Cyclonus e Tailgate desenvolveram uma amizade improvável, sustentada em dividirem um quarto (já que ninguém mais queria dormir no mesmo quarto que Cyclonus) e na ignorância do pequenino sobre, bem, tudo. Essa relação começou violenta (MtmtE #4 Life After the Big Bang) e unilateral antes de das barreiras do guerreiro cederem aos poucos. Sentimentos fortes se desenvolveram nesse período, com demonstrações de afeto sutis, marcadas pelas neuroses particulares de Cyclonus. Esse afeto não impediu o veterano de ser rude e insensível com Tailgate. São cenas conflitantes e tocantes - e em mais de um caso, o comportamento insensível é claramente bem intencionado, em forma deturpada. Quando Tailgate foi informado por Ratchet de que ele estava morrendo (de velhice), Cyclonus se desfigurou como uma forma estranha de partilhar daquele sofrimento. Mais tarde, ele ofereceu um conselho cruel: não mantenha esperança de uma cura - porque sem uma esperança, não há nada a ser perdido..

:(
Tailgate em seu leito de morte (posteriormente evitada).
Ao fim de Remain in The Light, Cyclonus salvou a vida de seu pequeno companheiro, mas perdeu sua centelha para o carismático Getaway - que não tratava o ingênuo com insultos, cinismo e violência. Getaway parecia um par perfeito: carinhoso, atencioso, disposto a ensinar coisas novas... Em MtmtE #30 (World: Shut Your Mouth: a Beginner’s Guide to Predestination), ele demonstrou aos leitores como isso não era tão real, usando da sede de atenção de Tailgate para se aproximar dele, simpatizando com sua mentira sobre heroísmo e contando sua não-tão-ilustre carreira militar. Quanto mais o tempo passava, mais Getaway e Tailgate passavam juntos (uma coisa recorrente no fundo de MtmtE em sua “segunda temporada”). E na edição #40 (Our Steps will Always Rhyme), o “par perfeito” novamente demonstrou lado manipulador, tentando afastar de vez Tailgate e Cyclonus dizendo que o ultimo lhe confidenciou que achava Tailgate um “covarde simplório” por seu medo de morrer, brincando com os sentimentos do pequenino. De um “amigo” rude e violento, Tailgate agora era vítima de um predador emocional.
Uma "conversa inocente"
Isolando o alvo emocionalmente...


De um lado, um amor cruel. Do outro, uma crueldade gentil


Sedução, manipulação, ou as duas coisas?
É uma cilada Tailgate!
O comportamento emocionalmente abusivo continuou no #47 (The Lopsided Triangle). Roberts expande o conceito de Conjunx Endura (o casamento cybertroniano) com a introdução do “Conjunx Ritus”, os rituais em preparação para a união. Getaway os explica para Tailgate, informando o que dos quatro atos necessários,  eles já compraram três, faltando apenas um: uma prova de devoção. E como essa prova, Getaway quer que Tailgate faça mneumocirurgia em Megatron. Um ato que certamente resultaria na morte brutal e dolorosa de Tailgate.


Até este ponto,  Getaway manipulou emocionalmente Tailgate rumo a uma união amorosa - da qual logo se descobre que ele não tem nenhum interesse: Tailgate é apenas um fantoche para o insensível e vingativo Getaway, planejando usar o seu “amado” como um sacrifício para acabar com qualquer possibilidade de redenção para o ex-líder dos Decepticons. Para esse fim, ele se aproveitou da carência afetiva de Tailgate e de suas inseguranças com Cyclonus.


Chorando a dor de cotoveloAo mesmo tempo, depois de afogar suas mágoas na bebida, Cyclonus chega a suas próprias conclusões quanto a Tailgate. Depois de ver o quão próximos Getaway e Tailgate estão, ele vai “chorar as mágoas” com a última pessoa que esperava o ver: Whirl, o psicótico, maníaco e rancoroso autobot que outra hora será alvo de um perfil completo. Nessa conversa, Cyclonus reconhece duas coisas: que ele tem sentimentos por Tailgate, mas não há nada que faça ele merecer ser retribuído - e Whirl deixa claro que o melhor que ele tem a fazer é deixar ele ser feliz (ignorando as intenções de Getaway):


"Em breve: Cyclonus de Trixylix em "Meu amigo tem um novo amigo!" HA! Seu safado! Eu achei que isso era vida-ou-morte, não carinha-triste boo-hoo problemas no relacionamento. Aqui vai. Toma uma verdade dura, de graça. Por pura coincidência, você e o Botão de Pânico terminaram sendo colegas de quarto. O que faz você pensar que há qualquer conexão além disso? A única  coisa que vocês tem em comum é uma porta da frente....
"Eu salvei a vida dele."
"E? E o que? Ele te deve? Você deve a ele? Ele não tem permissão pra fazer outros amigos?”
"Eu... sinto por ele."
"Novamente: e daí? Eis uma ideia: quem sabe ele simplesmente goste do Getaway mais que ele gosta de você. Alguém acharia isso supreendente? O que você pode oferecer a ele além de sua desaprovação garantida e  um rosto como um funeral? Tudo que você faz é olhar para a janela! Meu conselho para você? Supere isso - por que ele claramente te superou. E vamos encarar.. ele está melhor com o outro cara.”
Tem um aspecto de personalidade muito forte nesta conversa: Cyclonus pede conselhos a Whirl justamente por que saber que Whirl é, bem, um babaca - mas um babaca que diria aquilo que Cyclonus não quer ouvir: a verdade. Os eventos que vem depois dessa conversa ficarão para outro artigo: a edição saiu no mês passado, e a conclusão desse triangulo amoroso (onde uma das partes não tem sentimento algum pelo amor disputado) tem muito a dar ainda - só posso dizer o quase óbvio: Cyclonus é retribuído, sim, apesar de ter empurrado Tailgate para longe com sua incapacidade afetiva. Mas não há um final feliz, por ora.


Da ficção para a realidade


Os dois relacionamentos de Tailgate tem marcas claras de abuso. Cyclonus, emocionalmente distante, desaprovador e verbalmente violento (quando não fisicamente). Getaway, por sua vez, demonstrando todos os traços de um predador sexual, embora seus interesses com o “jovem” não sejam sexuais. Ele sabe as palavras certas para manipular seu parceiro, torce-lo a sua vontade, e fazer parecer que ele queria isso o tempo todo.


Amor doentio
A forma perturbada de Cyclonus demonstrar preocupação:
Auto mutilação. 
Pessoas assim existem. Cyclonus faz o tipo mais comum de abusador, o tirano emocional, que não tem nada de positivo para dizer a pessoa que ama, e apenas a joga para baixo mais e mais. Assim como muitos abusadores desse tipo, ele realmente ama a sua vitima - mas seus problemas pessoais fazem desse amor uma coisa doentia e tóxica. Mas diferente da maioria dessas pessoas, ele reconhece que é um problema, que ele não faz bem para Tailgate, e que suas maneiras de expressar afeto são pouco diferentes da maneira que demonstra desgosto.


Getaway, por sua vez, é um sociopata - ele não vê problema em manipular e usar Tailgate (ou qualquer outro: Tailgate era só o ‘trouxa mais fácil’) para seus próprios fins, e descarta-los mais tarde. É o tipo de cara que seduz com promessas de amor perfeito e devoção, apenas para descartar mais tarde, depois de levar pra cama. Não é improvável pensar que no caso (implausível) de Tailgate sobreviver a seu “ato de devoção’, Getaway seria um “marido” mais abusivo e insensível que Cyclonus era como “só amigo”.


Manipulação emocional 101
Getaway, dizendo exatamente o que Tailgate quer ouvir
Cyclonus está longe de ser o tipo que agride fisicamente o companheiro (embora  tenha tido incidentes disso antes de desenvolver sentimentos por Tailgate), mas ainda assim é um relacionamento tóxico, do tipo que deixa a pessoa se sentindo “um nada”. Getaway, por outro lado, há pouco que leve a pensar que ele não seria fisicamente abusivo depois que seu uso para Tailgate acabasse.

Cyclonus, apesar de tudo de ruim que já fez, pode se redimir - a primeira parte ele já fez: reconhecer que é um problema. O resto vai depender do futuro e de se ele vai querer mudar e se esforçar nisso. Getaway e pessoas como ele não tem salvação: relacionamentos para eles são meios para um fim, sem ter qualquer valor na ligação afetiva em si. Nada disso faz de Cyclonus alguém inocente, no entanto. 

Assim como outro abusador famoso de quadrinhos não pode ser inocentado do que fez só porque se arrependeu e se esforçou para mudar - mas o abuso mútuo entre Hank Pym e Janet van Dyne é assunto para outra hora.  

todas as imagens por Nick Roche.

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