domingo, 13 de dezembro de 2015

Baú de Brinquedos: Monster High, levando o "macabro" para a sessão de meninas.

Um tema que não se espera em uma linha para meninas
Monster High: figuras "macabras" para meninas.
Um dos tipos mais abundantes de brinquedos no mundo são Fashion Dolls, bonecas cuja principal característica são roupas de verdade*. A mais famosa dessas bonecas é, obviamente, a Barbie, produzida pela Mattel. O estilo visual dessas linhas varia bastante, mas no geral elas são todas a mesma coisa: corpos irreais, moda, acessórios e fofoca.


Mas a mesma fabricante da Barbie trouxe uma surpresa agradável para o mercado em julho de 2010, com a linha Monster High. Criada por Garret Sander e usando arte de Kellee Riley  e Glen Hanson, Monster High se destacou pelos temas “assustadores” e “nojentos” como monstros  mortos-vivos - geralmente relegados a linhas “para meninos”, e em sua maioria, linhas de blind bags e outras miniaturas não articuladas sazonais - Monster High cobriu as prateleiras rosadas das alas para meninas com lobisomens, zumbis, fantasmas e carniçais.


A primeira coleção era simples: cada boneca incluía como acessório um “diário secreto” (padrão repetido em outras coleções da linha) e um stand temático. O padrão visual lembra a linha concorrente “Bratz”, com proporções exageradamente magras e pernas extremamente longas - daí a necessidade do stand, pois elas mal são capazes de ficar em pé. Ao mesmo tempo que o design apela para o “monstruoso”, também apela para o mesmo padrão de beleza desse tipo de linha. Em suma, “garotas monstro lindas”.


A "fashion Doll" original
Bild Lilli: de onde todas essas bonecas se originaram
Enquanto a média das “fashion dolls” são tijolos com o mesmo grau de articulação da ancestral da Barbie, Bild Lilli (que não era voltada para crianças), a linha Monster High é marcada por um grau enorme de articulação: juntas universais nos ombros, cotovelos, pulsos, quadris, joelhos e pescoço, totalizando 11 pontos de articulação e mais de 20 eixos de movimento, comparável a linha original de G.I. Joe. Ao contrário da maioria das linhas do gênero,  os moldes não são reciclados, com apenas mudanças de roupa: praticamente todos os personagens (mais de 50!) contam com um molde “único” (até que seja usado em outra boneca dela mesma ou muito similar) com variações de textura, detalhes (como pelos e chifres) ou altura - com uma média de 27cm.


Em seus 5 anos de produção, Monster High teve todo tipo de monstros e assombrações: dos mais básicos vampiros e lobisomens até mulheres mariposa, monstros marinhos e plantas carnívoras.  Até alguns seres demoníacos deram as caras (na linha Create-A-Monster) e a animação contou com uma breve aparição das proles estelares do grande Cthulhu! Mas como toda boa linha, ela tem suas estrelas...


As personagens e o cenário



A imensa criatividade dos designs de Monster High infelizmente não dá as caras no cenário da linha, uma escola para monstros em Nova Salem,  (eu tenho certeza que teve um filme do Salsicha e do Scooby sobre isso...), meramente dando um toque “macabro” para os típicos dramas colegiais. Ao mesmo tempo, a série tem todo um mundo mal explorado de monstros e espectros, abordado em recortes nos diários e animações.


Faltando duas figuras.
Parte da coleção original.
A protagonista de Monster High é a jovem Frankie Stein, a “filha” do Monstro de Frankenstein e sua “noiva”. Com meros 15 dias quando a ficção de Monster High começa, Frankie é ingênua, desastrada, lenta e dada a “choques”. Complementando a primeira coleção de Monster High estão suas amigas Clawdeen Wolf (filha dos lobisomens), extrovertida e atlética; Draculaura (filha -adotiva - do Conde Dracula), a mais “menina” do sexteto original, e um dos muitos casos de “vampiros vegetarianos” em ficção infantil; Lagoona Blue (filha da criatura da lagoa negra e uma ninfa marinha), uma estudante de intercâmbio australiana mais “tomboy” - e que foi saindo de foco com os anos. Além do quarteto original, a primeira coleção contava também com a “Fearleader” Cleo de Nile, (filha da múmia), a típica “alpha-bitch” de séries de High School, vendida em conjunto com seu namorado, o “jock” Deuce Gorgon (filho da Medusa); sua confidente/capacho/melhor amiga, a nerd Ghoulia Yelps (filha de zumbis - não me pergunte como isso funciona), que só se comunica por grunhidos e o esquentado DJ Holt Hyde (filho do Dr. Jekyll).


Um tipo de figura que se espera em uma linha de fantasia medieval
Gêmeas siamesas?
Com o passar dos anos a linha explodiu em número de personagens, introduzindo referências que vão de faces familiares como o Abominável Homem das Neves (Abbey Bominable), o Cavaleiro sem cabeças (A diretora sem cabeça Bloodgood), fantasmas (Spectra Vondergeist, entre outras) e o Fantasma da Ópera (Operetta - ignorando que o Fantasma da Opera era só um cara desfigurado) até obscuridades e excentricidades como o yokai Noppera-bô (Kiyomi Haunterly), mulheres aranha (Wydowna Spyder), o “pé grande” sul-americano Maricoxi (Marisol Coxi), robôs (Robecca Steam e Elle Eedee) e a hidra de lerna (Peri e Pearl Serpentine - uma boneca de duas cabeças). Cleo foi substituída como “antagonista” pela mulher tigre Toralei Stripe em 2011. Onde a primeira era a “garota popular”, Toralei é a “rebelde sem causa”, quase um Arthur Fonzarelli (do seriado Happy Days) do mal.


Também foram introduzidos mais rapazes, como o elemental do fogo Heath Burns, o zumbi Sloman “Slo-Mo” Mortavich, o Homem-Peixe Gillington “Gil” Webber (namorado de Lagoona), o lobisomem Clawd Wolf (irmão de Clawdeen e namorado de Draculaura) e o bizarro “zumbicórnio” Neightan Rot - metade zumbi, metade unicórnio - e um personagem cadeirante, lançado no fim deste ano, Finnegan Wake (cujo nome é uma referência ao romance experimental de James Joyce)

Representatividade deficiente - só falta alguém fora do padrão Magro e/ou atlético
Cadeirantes: o tipo mais raro de boneco. 


Vários desses personagens foram introduzidos em animação antes de aparecerem como brinquedos, e linhas posteriores introduziram personagens que não eram alunos da escola do título. Além disso, muitos personagens de Monster High (por ora) existem apenas na ficção, sem um brinquedo acompanhante.


As animações



Melhor que a média para Flash
Comerciais nada disfarçados.
Como muitas linhas de brinquedos, Monster High contou com animação como um meio de promoção. Mas enquanto outras coleções contavam com séries animadas na televisão, Monster High optou por um caminho mais barato: curtas produzidos para a internet, e especiais mais longos lançados diretamente em vídeo. Até 2012, as animações (que em sua grande maioria condiziam com o lançamento de coleções temáticas) eram produzidas em Flash, com narrativas simples voltadas para promover as bonecas mais novas.

Em 2012, a produção passou a focar quase que exclusivamente nos especiais, produzidos em CGI-não-muito boa. A parte boa: elas parecem com as bonecas. A parte ruim: elas parecem com as bonecas. Essas animações são o tipico água-com-açucar de desenhos para meninas, misturado com o besteirol americano de séries colegiais, e um toque de sobrenatural - nada para se escrever a respeito. Houve também uma série de curtas animados no Japão, sem muito que a destaque da animação americana (e também se resumindo a um comercial disfarçado.


Não acho que era esse tipo de "creepy" que queriam...
Uncanny Valley atingido 100%
O que deve ser dito a respeito delas são duas coisas: a primeira é que com o passar dos anos Draculaura foi “roubando o foco”, incluindo especiais dedicados a ela (coisa que nenhuma outra teve). A segunda é que, embora conte com nomes notáveis da dublagem americana como Laura Bailey, Yuri Lowenthal e Wendee Lee, Monster High tem uma das piores dublagens em séries do tipo, dando a impressão de que todo mundo teve a voz digitalmente alterada para ficar mais aguda.


As sublinhas



Monster High não se ateve somente ao básico, e como quase toda linha moderna de brinquedos convertida em franquia multimídia, se espalhou em muitas linhas secundárias - algumas voltadas para o aspecto Fashion doll, outras sem qualquer relação com o play-pattern da linha original.


Pense "boneco Jumbo" , só que articulado.
Enorme e gosmenta.
As grandes linhas “de bonecas” de Monster High centraram se em temas, sendo essencialmente imprints temáticos da linha, indo de temas como “praia” e “festa” a “zumbi” e “arábias”. Algumas dessas linhas temáticas tiveram mais destaque, como Boo York, Boo York (broadway), Freaky Fusion (personagens fundidas ou monstros híbridos), Haunted (fantasmas) e Freak du Chic (circo - que contou com a maior boneca da linha, Goolliope Jellington, com 47cm de altura - maior que o Devastator que eu resenhei).


Outra linha de destaque foi Ghouls Alive!, uma linha breve com apenas seis bonecos (Frankie, Howleen, Robecca, Spectra, Toralei e Deuce) com efeitos de luz e som. Enquanto outras linhas tinham bonecas cantantes, está tinha bonecas que levavam choques, uivavam e emitiam sons fantasmagóricos.
Um dos exemplos da linha.
Figuras desmembradas para meninas? Sim!


Creepy nem descreve
De normal a macabro só trocando peças.
Uma das maiores sublinhas, durando três anos, foi Create a Monster. No lugar das figuras prontas e pré-estabelecidas, a linha oferecia as partes do corpo para criar “seus próprios monstros” e misturar a vontade. Em 2014 ela foi seguida por “inner Monsters” (Jonathan Wojczik, do Bogleech.com avaliou uma das figuras aqui), uma micro coleção de três bonecas com cérebros expostos, que contavam com multiplas opções de escalpos, rostos, olhos e orgãos internos. E que como suas antecessoras, podiam ser desmembradas com facilidade. As três figuras da linha eram uma fênix/demônia, uma garota planta/polvo e uma garota pavão/demônia.


Cérebros expostos em brinquedos pra meninas? Tem sim!
adoravelmente gory
Mas as linhas secundárias que saiam do padrão também se destacam. Além dos basicos conjuntos de maquiagem, roupas (reais ou para as bonecas) e playsets, Monster High conta com linhas de minifiguras em vinil, bichinhos de pelúcia, bonecas de pano (incluindo um que tecnicamente é parte da linha principal, Hoodude Voodoo), designer toys (monster Cross) gravadores (Secret Creepers, bichinhos de estimação das personagens que gravam e reproduzem sons quando seus cérebros são pressionados) e em 2015, centauras, a linha Frightmares, criada para competir com My Little Pony depois que a Hasbro fez uma linha para competir com Monster High. Essas são só algumas das linhas de Monster High: não há como cobrir todas aqui (mas há uma wiki se quiser saber mais).

Centauras infernais para competir com My Little Pony


Assim como na linha principal, as linhas secundárias de Monster High se destacam na ousadia rara para uma linha para meninas. O tom macabro-mas-fofo da linha resultou em coisas como bichinhos cujos esqueletos brilham, figuras com cérebros expostos e bonecas mutiláveis. Apenas um dos spin-offs de Monster High saiu desse padrão...


O spin-off : Ever After High



De monstras a contos de fada... de volta ao tradicional
Uma linha mais "tradicional".
Lançada em 2013 como uma linha derivada, mas separada de Monster High, Ever After High é tudo o que Monster High não é: onde a original focava em monstros, filmes de terror e similares, Ever After High é sobre os descendentes de personagens de contos de fadas (premissa que a Disney e a Hasbro reaproveitaram em Descendants). Mais tradicional, a linha não tem tanto sucesso (embora ainda seja um sucesso estrondoso) como Monster High, talvez por não ter nada que realmente a destaque.


Ainda assim, Ever After High tem seus pontos de criatividade em um mercado primariamente composto por imitações de imitações. A ficção da série estendeu as intrigas de colégio para uma sutil “guerra política” entre os Reais que desejam seguir o script dos contos de fada e repetir a trajetória de seus pais e os Rebeldes, que querem escrever seu próprio destino.


Skywarp fêmea?
Raven Queen: a protagonista improvável.
Nisso, Ever After High escala a filha da Rainha Má (Raven Queen) como a protagonista (que não se conforma com o papel que lhe foi designado no nascimento) e a filha da Branca de Neve (Apple White) como uma vilã inocente, que não entende porque alguém rejeitaria o seu destino, sem entender que enquanto ela tem um final feliz reservado, há quem só tenha sofrimento pré traçado. Assim como em Monster High, há uma miríade de personagens conhecidos e não tão conhecidos referenciados entre as bonecas de Ever After High  - incluindo um raro take do arquétipo do “vilão traíra” (vulgo Starscream), Duchess Swan, filha da Rainha Cisne e que aceita o seu destino - contando que ela possa roubar o final feliz de outra pessoa. Ever After High também tem uma wiki, aqui.


Monster High é uma linha rara: algo que inovou o estagnado mercado de brinquedos para meninas, e demonstrou que ele não precisa se restringir apenas a “moda” e “tarefas domésticas”. Ao invés disso, arriscou no monstruoso e conquistou uma fatia de mercado considerável, dando uma lição valiosa de como meninas querem mais do que só “o rosa”. É uma pequena ilha de diversidade nas estantes de brinquedos, com uma criatividade efervescente que parece longe de se esgotar. E longe de ficar sem monstros para homenagear.

Centaura-Harpia, Mariposa-esqueleto, Sereia-fantasma... A rota Fuzors sempre funciona
E se as ideias acabarem, sempre dá pra seguir a rota de Beast Wars Fuzors: MISTURA TUDO. 



* G.I Joe e outras linhas de “action figures” naseceram como “fashion dolls” para rapazes. No lugar de roupinhas estilosas, estavam uniformes militares e armas.

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