segunda-feira, 17 de agosto de 2015

De robôs e romances aristocráticos.

O que isso pode ter a ver com robôs gigantes?
Alguns meses atrás, em outro site, eu escrevi sobre a estranha relação entre Horror e Robôs Gigantes. Agora retomo o tópico dos gigantes mecânicos para tratar da sua relação com outro gênero literário: o romance ruritânio. Um gênero literário muito popular no final do século XIX e começo do século XX, e que caiu em popularidade junto com as monarquias européias.


Situados quase que inevitavelmente em algum país fictício da Europa Oriental (tal qual a “Ruritania” que dá nome ao gênero, cenário da trilogia O Prisioneiro de Zenda, de Anthony Hope), esses romances focam suas atenções em versões romantizadas dos jogos de poder da classe dominante (em geral, aristocracia e monarquia). Centradas em intrigas palacianas, espionagem e aventuras de capa-e-espada, essas aventuras não gozavam de grandes pretensões, e idealizavam o poder aristocrático.


Um exemplo da literatura do gênero. 
A ficção Ruritania em geral se centrava em temas de honra, lealdade e amor verdadeiro, enquanto a trama muitas obras girava em torno de restaurar o legítimo governante depois de um período de usurpação e ditadura. O gênero também é chamado de literatura Graustarkiana, a partir da série Graustark, de George Barr McCutcheon. A série, com seis livros, se centra nas intrigas políticas e na restauração da fictícia nação de Graustark.


“Mas o que isso tem a ver com robôs gigantes”, você deve estar se perguntando. E eu lhe digo: tudo. Ok, não tudo, mas muito. A relação entre a literatura ruritânia e os robôs gigantes começa com UFO Robô Grendizer, de Go Nagai, em 1974. Embora não fosse explicitamente graustarkiano, Grendizer era a história do herdeiro legítimo do planeta Fleed, Duke Fleed, que havia sido usurpado pela Aliança Estelar Vega.





Mas foi a partir de 1977, com Voltes V, de Tadao Nagahama que a relação entre as duas formas narrativas se tornava explícita. A segunda série da “Trilogia Romântica” de Nagahama, Voltes V trazia a guerra entre a terra e os Boazanianos. A última esperança da terra caia sobre o robô super eletromagnético Voltes V*, e seus pilotos, os irmãos - secretamente, os filhos do herdeiro legítimo do trono de Boaz, cujas forças eram lideradas por seu rancoroso meio irmão, Principe Heinel.Bebendo do drama exagerado da literatura graustarkiana, Nagahama deu ao gênero o grau de caracterização e drama interpessoal que até então ele carecia - e o fez centrando o em um drama familiar e político digno dos romances idealistas que marcaram a virada do século.


A Lenda dos Heróis Galáticos: intriga e política a melhor
moda do gênero.
O apreço da indústria de entretenimento japonesa por romances graustarkianos já transparecia em obras como Rosa de Versalhes (de Ryoko Ikeda) e A Princesa e o Cavaleiro (de Ozamu Tezuka). Ambas envolviam personagens que tomavam em armas para evitar a queda do reinado legítimo e sua usurpação por ditadores. Outra série a beber profundamente do gênero (e de maneira mais clara que qualquer outra, na minha opinião) é a gigantesca Lenda dos Heróis Galáticos, com 110 episódios lançados diretamente para vídeo. A série se centra em dois estrategistas - o nobre Reinhard von Mussel do Império Galático, e o relaxado Yang Wen-Li, da Aliança dos Planetas Livres, em meio às intrigas de uma guerra que dura décadas..


A adaptação de Rosa de Versalhes para TV, em 1979, foi a última obra de Nagahama, que na mesma época trabalhava em uma quarta série de Super Robôs: Mirai Robô Daltanias - que bebia da mesma tradição romântica, e cujo título talvez fosse mais apropridadamente traduzido como Dartagnas - afinal, o nome do robô vinha de nada menos que D’artagnan, o quarto membro dos Três Mosqueteiros. Mas a relação vai além.  


Cassval/Char e a família Zabi: uma trama típicamente
Graustarkiana no fundo de um drama de guerra. 
Nagahama abriu as portas para uma enxurrada de séries Graustarkianas. Mobile Suit Gundam inaugurou o drama de guerra na animação Japonesa, e ao mesmo tempo era a jornada de Char Aznable para se vingar dos usurpadores da família Zabi e reestabelecer a ordem no Principado de Zeon. Em Aura Battler Dunbine, que bebe fartamente da fantasia medieval ao mesmo tempo, o piloto de motos Sho Zama é levado ao mundo mágico e distintamente europeu de Byston Well para servir nos exércitos do perverso Duke Luft, antes de debandar e se juntar a resistência contra o tirano. Tenkuu no Escaflowne também mistura o Graustarkiano com fantasia medieval e segue o príncipe Van Slanzar de Fanel, herdeiro do Trono de Fanelia, destruído pelo império Zaibach no mesmo dia de sua coroação.


Daiohja: um robô gigante contra a corrupção.
Algumas séries levavam a referência a um grau mais elevado. A obscura Saikyou Robo Daiohja acompanhava a jornada do príncipe Edward Mito, que decide viajar disfarçado pelo império (composto de mais de cinquenta planetas) para ver o que há de errado em cada mundo - acompanhado de dois amigos, Barão Kalkus e Duque Skead, o princípe encontra corrupção e vilania que nem imaginava praguejar o reino. Menos obscura, Heavy Metal L. Gaim segue o princípe Daba Myroad contra o regime opressivo do ditador Oldna Posseidal. L. Gaim serviu de base para Five Star Stories, essa centrada totalmente em intrigas aristocráticas, e que faz dos robôs gigantes o equivalente social para um título de nobreza.

Five Star Stories: Luxo, aristocracia, intriga e Mortar Headds.


Sakura Taisen, bebendo da estética graustarkiana.
Até alguns jogos do gênero trazem traços do gênero, quando não o seguem diretamente. O primeiro grande arco de Xenogears gira em torno da libertação e restauração da ordem no reino de Aveh pelo desaparecido herdeiro do trono, Bartholomew Fatima - e um elemento recorrente no jogo são as intrigas entre a aristocracia regente. Parte crucial de Super Robot Taisen, a série Mazoukishin se foca nas guerras e jogos de poder da aristocracia do mundo mágico de La  Giars (e conta com mais nomes pretensiosamente nobres que os dedos podem contar. Randol Zan Zenozakis, alguém?). Vanguard Bandits, para o PS1, é outro jogo que se centra em um herdeiro secreto do trono, conquistado por um ditador, e que representa a única esperança para devolver a ordem. A série Sakura Taisen , por sua vez, bebe visualmente do gênero, fazendo de suas protagonistas uma trupe teatral Takarazuka - vestidas como galantes oficiais em uma peça do gênero.


Gundam Wing: mais Graustark, impossível. 
Gundam F91: uma trama de intriga e ambição,
mascarada como um filme de robôs gigantes.
Praticamente uma “instituição nacional” no Japão, Gundam tem uma relação profunda com o gênero. Da busca de vingança de Char em MS Gundam até o golpe militar contra a princesa Diana Soriel em Turn A Gundam e alem, a franquia está repleta de herdeiros desaparecidos, regentes depostos, ditaduras ilegítimas e regimes usurpados, prontos para serem derrubados pela ação dos protagonistas. Mas algumas séries em particular abusam do Graustarkismo. Esse é o caso de Gundam Wing, que foi exibida no Brasil pelo Cartoon Network. Na série, marcada por intriga política de todo tipo (a ponto de distrair do resto), um dos pontos centrais são os desaparecidos herdeiros do trono do Reino Sanc. Em Gundam F-91, grande parte do filme se centra nas intrigas e ambições da família Ronah (e sua sequência, Crossbone, virou um mangá sobre piratas. Vai entender) .Gundam Victory levou a inspiração na aristocracia europeia a tal ponto que seus vilões, o Império Zanscare, chegam a reinstaurar o uso de guilhotinas. E ao mesmo tempo, a maior esperança para a paz está nas mãos da melhor amiga do protagonista, secretamente a herdeira do trono Zanscare.


Code Geass: muito além da estética.
Mais recentemente, o gênero foi o ponto focal de Code Geass, acompanhando a busca de Lelouch Lamperouge, filho caído do imperador Charles zi Britannia, para a destruição total do reinado de terror de sua família. A qualquer custo. Star Driver também bebe da mesma fonte: escrito pelo mesmo roteirista de Revolutionary Girl Utena (que traz uma trama 100% graustarkiana em uma escola particular), Star Driver traz apenas a iconografia de Utena e da literatura do gênero - mas merece a citação. Aldnoah.Zero, lançado ano passado, centra se nas tensões entre o Sagrado Império de VERS e a Terra após o assassinato da princesa de Marte, usado como justificativa para a guerra. A série americana Sym Bionic Titan também puxa muito da estética do gênero.





E para quem se interessa por obras nacionais, o RPG Brigada Ligeira Estelar se centra justamente nessa intersecção entre o romance de capa-e-espada e os robôs gigantes. A própria terminologia do cenário planta firmemente as referências à Europa no fim do século XIX - transplantada para um cenário espacial.



*Curiosamente, a série de robôs gigantes que ao fim girava em torno da retomada do governo legítimo de Boaz seria responsável pela queda de um governo ilegítimo real: Os paralelos entre o governo ilegítimo de Zu Zambaji em Boaz e o governo de Ferdinando Marcos nas Filipinas levaram ao cancelamento do desenho no país, faltando quatro episódios para o final. A geração que até então ligava apenas para o desenho de robôs e monstros começou a notar o país que os cercava - e eles estavam furiosos. Essa mesma geração cresceu, e em 1986 foi crucial nos movimentos de revolta popular contra Marcos - hoje, Voltes V beira o estado de herói nacional nas Filipinas.

2 comentários:

  1. A relação parece interessante, mas sendo assim toda a icção Space opera derivaria disso. Será mesmo que podemos assumir com tanta certeza essa influência e relação? Obviamente, toda obra de aventura teve origem com Alexandre Dumas, mas nem por isso toda obra atual de fantasia é meramente um capa-e-espada.

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    1. Olha, não são similaridades superficiais, e não é questão de copiar os romances de Graustark, mas pertencer ao mesmo gênero literário - e as relações são bem claras, em vários casos bebendo até da estética dos romances da corte do século XIX. São série com um grande foco em intrigas da nobreza, na monarquia como poder justo e na "restauração da ordem legítima", temas que definem o gênero - da mesma maneira que O Grande Deus Pan é a perfeita definição do que hoje se chama de Horror Cósmico (e que foi tragicamente suplantado pela obra de H.P. Lovecraft). Não dá pra negar a influência, mas há de se levar em conta que influência não é cópia, e não é limitação.

      espero ter sido claro :p

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