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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Minorias nos Quadrinhos: Bouncing Boy



Rápido, sem pensar muito, quantos super heróis gordos você conhece? Não são muitos, certo? Agora, quantos desses são personagens “sérios”? Em sua grande maioria, personagens gordos em histórias de super heróis são ou vilões (e que costumam fazer ou o tipo “Jabba” ou “Barão Harkonnen”: o vilão cuja obesidade mórbida o torna quase imóvel e simboliza sua decadência moral, ou o tipo do Blob: um glutão com intelecto limitado e cujos poderes estão intimamente ligados ao ser gordo) ou são alívio cômico.
Essa pose exata foi usada centenas de vezes. Quase como
se tivesse um adesivo dele para colar na página. 


Bouncing Boy, da Legião dos Super Heróis, não é exceção a regra: criado na revista Action Comics #276 como uma piada ambulante em 1961 por Jerry Siegel e Jim Mooney, Chuck Taine do planeta terra tem o incrível poder de inflar em uma bola e quicar. Assim como certos personagens anteriores *coffcoff EttaCandy coffcoff*, em sua caracterização original Taine tinha uma única coisa em mente: refrigerantes. E é dessa gulodice que nascem seus poderes, pois num dia fatídico, Chuck Taine bebeu uma formula secreta para um super plástico, ganhando o poder de inflar. Depois de ser rejeitado pela Legião dos Super Heróis por “ser ridículo demais” duas vezes, Taine foi aceito na Legião após derrotar um vilão elétrico. Afinal, seu corpo de plástico não conduzia eletricidade.

Não parece um começo muito promissor, não é? E realmente não era: em seus primeiros anos, Chuck Tane era o típico “gordo de quadrinhos”: atrapalhado, sempre pensando em comida, e mais problema do que ajuda. Em suma, uma piada ambulante. E nada melhor para servir de exemplo disso do que Adventure Comics #375 (1968, “Todos Saudem o Rei da Legião”), uma história centrada totalmente na premissa de “o quão absurdo seria se Bouncing Boy derrotasse o resto da legião”.


Mas com o passar dos anos, o personagem foi se desvencilhando das amarras do estereótipo e graças a perene rotação de líderes da legião, se demonstrou um líder competente - talvez um dos melhores que a legião teve. O antes imbecil herói demonstrou repetidas vezes um intelecto aguçado que lhe permitiu compensar a relativa falta de poder com planos e ricochetes engenhosos. Com a liderança, veio um certo grau de seriedade. Não mais apenas um alívio cômico (mas ainda uma piada), Taine se demonstra um estrategista competente, e um excelente mentor para os recrutas mais novos.


Em Superboy #200 (1974), Chuck Taine se casa com outra legionária, Luonor Durgo, a Donzela Dupla, em um relacionamento que se desenvolveu ao longo dos anos.  Onze anos depois, abandona o rol ativo da legião após perder seus poderes pela segunda vez em Legion of Superheroes Volume 3 #11 (1985). Assumindo uma posição como reservista da Legião, Taine e Luonor se tornam instrutores para os novos recrutas do grupo. Um fim aceitável para um herói que surgiu como uma piada ambulante. E ao longo desses 24 anos de carreira, Taine jamais perdera a uma característica que realmente o definia: ser gordo. Ao longo dos anos ele oscilou entre “uma bola”, “obeso” e “com pança”, mas jamais fora “Atlético” ou “magro”.





Pós crise: sem poderes, menos esférico.
Mas a DC tinha outros planos. Veio a Crise das Infinitas Terras, e uma das primeiras coisas a desaparecer (e que levaria mais tempo para retornar) era a Legião dos Super Heróis, lar de alguns dos mais ridículos personagens da editora. Apenas em 1994 a Legião retornaria, e somente em janeiro de 1996, Chuck Taine retornaria, rebatizado como Charles Foster Taine (em homenagem ao Charles Foster Kane, o magnata de Cidadão Kane). Essa versão de Taine não era um super herói, mas um arquiteto e engenheiro, reduzido a um membro honorário da Legião. O nome Bouncing Boy, por sua vez, passou para uma máquina desenvolvida por Taine.


A cara de frustração é por causa das outras versões.
A vindicação de Taine viria apenas em 2006, com o desenho da Legião. Dublado por Michael Cornacchia, essa encarnação do personagem teve o caráter cômico reduzido, apesar de se manter fiel ao original. Na série, o rotundo herói era o “McCoy” para o Spock de Brainiac 5, e recebeu foco considerável como líder da Legião durante a maior parte da primeira temporada, atuando como estrategista repetidas vezes durante a segunda. Infelizmente, o desenho foi cancelado após duas temporadas, sina comum para as séries animadas da DC. Ainda assim, a versão animada - jovial, bem humorada, inteligente e engraçada sem ser pateta mantinha todos os aspectos positivos do original, sem o caráter ridículo da versão impressa.


Após a Crise Infinita (porque nunca se tem crises o bastante), uma versão de Chuck Taine retornou ao multiverso DC em 2008. Essa versão remetia ao original, e de maneira similar, era casado com a Donzela Dupla da sua realidade. Embora não fosse uma piada ambulante, esse Chuck Taine não tinha o mesmo carisma da versão animada - e terminou sendo uma nota de rodapé da Crise Final.

O que não impediu o cinema de faze-lo mias "em forma".
Chuck Taine é um dos raros super heróis gordos no Mainstream de quadrinhos de super heróis, e um dos poucos que foi tratado com um mínimo de dignidade. Sua versão televisiva, no entanto, é a que realmente merece respeito: enquanto nos quadrinhos sua gordura era um caso de “haha, ele é gordo”, a animação  fez dele um super herói que por acaso era gordo - mas cujo peso não o definia. E ao contrário do excelente Nite Owl de Watchmen - um herói fora de forma tratado na mais completa seriedade - Chuck não é gordo como um sinal de “ter perdido o jeito”: suas encarnações mais recentes são gordas por que gente gorda existe (e por trazer de volta um personagem gordo).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A iniciativa Hawkeye e as mulheres nos comics

Há muito tempo atrás, eu falei sobre a lamentável representação de homossexuais nas histórias em quadrinhos, em particular em revistas de super-heróis. Situação que melhorou muito pouco desde então, embora tenhamos tido alguns avanços significativos, e algumas medidas simbólicas, como fazer do lanterna verde da terra 2 "o lanterna verde gay".

Bem, agora, depois de quase dois meses de ócio, eu volto a falar de discriminação e representação nos comics com outro tema: mulheres. Tema que decidi trazer atona aqui (e reviver o blog no processo) em virtude da excelente Iniciativa Hawkeye, uma das maneiras mais hilárias de expor o quão ridículas e muitas vezes humilhantes são as poses absurdas tomadas por mulheres em hqs, redesenhando elas com o Gavião Arqueiro no lugar da contorcionista da vez.

Mas o problema vai mais fundo do que só a representação visual, então vamos por partes...


Falta de Identidade

Algumas dessas são versões diferentes da mesma Supergirl
Comecemos pelo problema mais "superficial" e mais óbvio: quantas super-heroínas são personagens em si? Grande parte das mulheres de destaque em HQs são ou começaram como uma versão feminina de outro personagem - e mais de um herói tem várias cópias femininas dele. Superman? Basta olhar as inúmeras Supergirls (quatro, da ultima vez que contei), junto com a Powergirl. Batman tem a Batgirl e a Batwoman - criada explicitamente como interesse romantico para o herói, em 1956 (para abafar acusações de que o homem morcego era gay, ironicamente, hoje ela é o personagem LGBT de maior destaque na DC). Mulher Gavião, Linda Strauss e Inza Nelson (Doctor Fate III e IV) são só mais alguns casos notáveis. Da "lista A" da editora mais antiga das HQs, a Detective Comics Comics - vulgo os membros "chave" da Liga da Justiça - a única não derivada de outro personagem é a Mulher Maravilha. 

É claro, esse não é o caso de todas as super-heroínas, mas uma grande parte se divide entre personagens de legado - vide a Questão atual, quarta detentora do título - ou cópias femininas de outros heróis, e o problema é mais notável na Marvel - ironicamente, a editora que tende a ser mais progressiva. Temos uma Capitã América (Sonho Americano, MC2), uma Mulher-de-Ferro (Resgate), ao menos duas cópias do Homem-Aranha (Mulher-Aranha II - a primeira tem identidade própria - e Garota-Aranha). 

Mas ela também exemplifica o segundo problema...
Roupa Própria?
Do meio disso tudo duas se salvam Jennifer Walters, a Mulher-Hulk - que nem se esforçaram com o nome, mas que hoje tem uma identidade muito forte desligada do primo - e Carol Danvers, a Miss Marvel, uma imitação tão descarada do Capitão Marvel que até a roupa era quase a mesma. Com o tempo ela se distanciou em termos de poderes e de design, ganhando uma vida própria como escritora, dramas pessoais e suplantando totalmente o original (hoje, a roupa e o título são dela). 

Não mais... e alguém detalhou um mamilo
A coisa fica ainda pior quando se olha os grupos feitos de imitações de outros heróis, onde temos uma predominância de mulheres e minorias - caso dos Jovens Vingadores, onde todo mundo é uma imitação, e é onde temos o mais notável casal gay da Marvel (Hulkling e Wiccano) e um dos mais notáveis casais multi-étnicos (Gaviã Arqueira e Patriota). Algumas super-heroínas da "lista C" podem não ser cópias de outro herói, mas copiam outra heroína, vide as cópias da Mulher Maravilha.

Para cada "Mulher Maravilha", temos 10 "Namoritas, Aqualass, Supergirls, Batgirls", e aparentadas. E é de se notar que a maioria das heroínas "autônomas" vêm de supergrupos. Não dá para dizer, por exemplo, que Ravena, Tempestade, Vampira ou Jean Grey sejam cópias de outros personagens - mas é notável que nenhuma dessas tenha surgido em uma revista delas - ou sequer que tenham uma revista própria. Na Marvel, a maior fonte de super-heroínas que não sejam legado ou parceiras de outro personagem está nos X-Men - justamente o grupo que nos anos 90 foi notável pelo excesso de personagens - enquanto na DC por muito tempo a fonte primária de heroínas não cópias era a Legião dos Super-heróis, com o mesmo problema.

Glory: a mulher maravilha de cabelo branco
(e em pose da playboy)
O boom das editoras no final dos anos 80 e inicio dos anos 90, com a ascensão de nomes como Extreme Studios, Wildstorm, Highbrow Entertainment, Top Cow Productions (todas do grupo Image), Dark Horse e Valiant resultou num aumento estarrecedor do número de super-heroínas nos mercado, com o surgimento de figuras como Lady Death, Glory, Witchblade, Cyblade, Avengeline e Fairchild. Todas sofriam de graus variados de derivação de outros personagens, indo de referências até cópias descaradas (Glory, em particular, era só uma imitação da Mulher Maravilha), e traziam a tona nosso segundo problema...


 Titilação acima de tudo.

Acho que a imagem ao lado seja um dos melhores exemplos do que vou abordar a seguir: temos aqui a primeira capa de "Vampirella", de 1969 (muito antes das garotas problemáticas do boom dos anos 90, e a "fonte" da Lady Death e da Avengeline). Embora o caso dela seja um caso extremo, o fato é que a representação padrão de mulheres nas HQs costuma ter como objetivo primário não a narrativa ou a demonstração de poder, mas sim a sensualidade e a titilação. 

Roupas coladas e decotas (as vezes simultaneamente), seios fartos, nádegas bem torneadas e pernas longilíneas são padrão entre super-heroínas e supervilãs igualmente, assim como poses absurdas que servem para colocar todos esses atributos em cena o máximo possível. 

Como demonstração disso, vou usar uma série de imagens da Iniciativa Hawkeye - a demonstração da mesma pose em um homem deve deixar claro o quão ridículas e muitas vezes submissas são as "manobras" de heroínas e vilãs.

Posando para a Maxim...
Não vejo qual o problema, é uma pose de ação, é poderosa, não é?

...Espera, o que diabos ele está fazendo?!

TEMAM MINHA VIRILHA! (sério, essa nem precisa da versão do Hawkeye)

Olhem como somos sexy!

É assim que a mutação dela é introduzida
Acho que isso são exemplos o bastante. Devo ressaltar que essas coisas não são exceções, mas sim a norma em muitas HQs...e a apelação sexual vai muito mais fundo do que só o artwork. O Boom dos anos 90 trouxe muitos casos extremos disso, como a seminua Lady Death, e a membro mais notável do Gen 13, Caitlin Fairchild - que além de ser uma Mulher-Hulk não verde, tinha a "memorável" habilidade de terminar quase todo arco de história com as roupas rasgadas - literalmente passando do que em geral era um maio hiper colado para quase nada no curso de algumas edições.

Ou o mais descarado caso de Amanda Waller, antes uma senhora gorda de meia idade, uma das poucas mulheres não atraentes do universo DC, que conseguia se impor como personagem sem precisar ter o físico de uma top model e os movimentos de uma stripper...


... e novo 52 é assim que ela tem sua primeira aparição: jovem, magra, empurrando o decote para a frente. O que era uma das únicas mulheres não "boazudas" da DC reduzida a mais uma, para como colocou o ex-editor chefe Dan Didio "focar no público masculino". Se "sutilmente" dizer que mulheres não gostosonas não tem lugar em HQs não é misoginia, eu não sei o que é.

Outro caso notável mais recente é o da Starfire/Estelar, dos Jovens Titãs (ou seja lá qual o nome da revista em que ela está hoje, Red Hood and the something-something acho). Estelar sempre foi altamente sexualizada, mas quando a DC decidiu resetar todos os seus títulos com o novo 52 ela sofre uma simplificação grotesca de personagem...

E ganhou uma espinha de borracha...
David Willis definiu bem o problema.
Antes uma figura alegre e emotiva, que celebrava o amor em todas as suas formas, incluindo o sexo, subitamente ela foi reinventada como uma figura apática e distante cujo único interesse era o "bom e velho tango horizontal". Obviamente, isso causou um grau considerável de polêmica - vinda em grande parte de quem conheceu a heroína através do desenho dos Jovens Titãs, e que merecidamente esperava algo minimamente similar a versão animada dela (e que fez mais sucesso que qualquer versão em quadrinhos da Tanagariana seminua). 

Para outro exemplo do foco excessivo em erotismo, é só ler o roteiro da primeira edição de All Star Batman e Robin (do eterno obcecado com prostitutas Frank Miller), que gasta mais tempo com instruções de como Jim Lee deve desenhar as nádegas da Vicki Vale (que passa as primeiras páginas desfilando de lingerie sem nenhum motivo) do que escrevendo a maldita história. E a repórter de Gotham nos leva ao terceiro problema...


Companheiras, Amantes e Sedutoras

Rápido, me digam alguma amiga da Lois Lane. Nenhuma? Que tal da Mary Jane? Algum detalhe da vida pessoal das personagens secundárias além do herói do título? Difícil, não? Algum interesse pessoal da Selina Kyle, a mulher gato, além de Batman e roubo de jóias (a julgar pela revista dela, sexo com o Batman após roubar jóias)? Embora algumas versões alternativas tenham mais profundidade do que isto, a grande maioria das personagens femininas em quadrinhos acabam se resumindo a um dos três papéis acima, especialmente quando são jovens.

É claro, é fácil dizer que isso é resultado de serem personagens secundárias... Mas enquanto o Comissário Gordon tem uma vida além de Batman e Bruce Wayne, o que se sabe da vida pessoal de Vicki Vale? Além da equipe do planeta diário, quem são os amigos da Lois Lane? Até em membros de super equipes essa discrepância é notável - quantas relações fora dos X-men ou dos vingadores tem a Tempestade - uma das mulheres de maior destaque na Marvel? Talvez ela não seja o melhor exemplo, mas é um personagem mais conhecido.

Peguemos um caso melhor, então: as multiplas mulheres no passado do Wolverine. Enquanto outras figuras do passado do baixinho enfezado tem longas vidas além da relação com o Logan, toda a existência de Yuriko (Lady Letal) e Silverfox parece girar em torno do X-men, vingador, X-force, X-qualquer coisa e rouba cenas padrão da casa das idéias. Não sabemos nada sobre elas além da relação com Logan. Enquanto isso, Dentes de Sabre tem um bocado de ligações além do Wolverine (notavelmente, o caso do Graydon Creed, o filho dele com a Mística).

The RuleUma boa maneira de se avaliar as questões de gênero no nível mais básico é o teste de Bechdel, introduzido pela cartunista americana Alison Bechdel na tirinha "Dykes to Watch For", em 1985. Para passar nesse teste básico, uma obra precisa ter: 1) Ao menos duas mulheres. 2) Elas tem que conversar uma com a outra. E 3) sobre algo além que não seja um homem. Não-surpreendentemente, não são muitas revistas de super-heróis que passam no teste. De fato, a maioria mal passa no primeiro item, e muitos dos que passam falham no segundo (em geral, quando passam do segundo o terceiro é garantido, o problema é chegar a tanto).

Uma heroína (e ex-vilã) que eu gosto muito, mas que falha espetacularmente em ter uma vida pessoal é a Soprano - como vilã, sempre definida pela relação com um vilão maior, e como anti-heroína e depois heroína nos Thunderbolts, nunca definida além do heroísmo e da relação com o Fundador dos thunderbolts, Barão Zemo. Isso parte de um problema essencial da industria de quadrinhos, e que também afetava a questão dos homossexuais: achar que "mulher" conta como um tipo de personagem. A mentalidade - não intencionalmente - é simples: "já é uma mulher, então tenho um personagem pronto".

É como a questão dos heróis negros, extremada no Luke Cage : "ele não precisa de um tema, ele já é um negro". Isso advém de um grau internalizado de sexismo por parte de autores homens, que os leva a ver mulheres como algo a parte, externado no discurso raivoso do ilustrador Tony Harris em novembro deste ano, afirmando que mulheres não são bem vindas nas convenções, não são nerds de verdade, e que seu único interesse é "chamar a atenção de homens inseguros para se sentirem bem". Resumindo: "Vocês não são como nós, são MULHERES, não vão nos entender, só querem nos seduzir".

Mulheres no refrigerador

E agora entramos no ultimo e mais violento problema, o que a escritora de quadrinhos Gail Simone chamou de "mulheres no refrigerador", a estranha tendência de personagens femininas serem mutiladas, perderem os poderes ou serem mortas como um dispositivo de trama. O apelido para esse tropo desagradável vem de uma cena infame dos quadrinhos do Lanterna Verde (ao lado), quando Kyle Rayner encontra o corpo mutilado da namorada enfiado na geladeira.

Embora heróis masculinos também sejam vítimas de violência como ferramente narrativa, como no caso do segundo Robin, Jason Todd, espancado até a morte pelo Coringa, isso não torna a situação menos desigual. Segundo o ex-editor do Comic Book Resources, John Bartol, no caso deles a tendência é retornar ao Status Quo - vide a morte e retorno de personagens como Super Homem, Bucky, Capitão América, Batman, Barry Allen (Flash II) e o próprio Jason Todd.

Enquanto esses personagens retornaram a vida, a maioria das mulheres "enfiadas no refrigerador" nunca retornam ao Status Quo. Quando Bruce Wayne ficou paraplégico, rapidamente ele encontrou maneiras de RESTAURAR UMA COLUNA QUEBRADA, mas quando Barbara Gordon esteve na mesma situação, ela só retornou a andar após o reboot do universo DC com o novo 52. Segundo Bartol, após as alterações, a maioria das personagens "nunca tem permitida, ao contrário do que ocorre com heróis masculinos, a oportunidade de retornar ao seu estado heroico original, e é aí que notamos uma diferença".

De acordo com Gail Simone, esse padrão é um dos maiores responsáveis pela falta de interesse de garotas por quadrinhos. "... a questão sempre foi: se você demolir a maioria das personagens que garotas gostam, então garotas não vão ler quadrinhos, simples assim", afirma. E não são raros os casos de "mulheres no refrigerador", sejam antigos ou recentes. Por raramente terem papéis principais, mulheres são "alvos fáceis" para gerar drama, mas nem as protagonistas escapam.

Vale notar como ela não teve sequer
chance de se defender.
Da morte de Gwen Stacy - um ponto alto na narrativa de super-heróis, até absurdos como a gravidez acelerada via estupro incestuoso da Miss Marvel (um dos pontos mais baixos da Marvel, e que hoje é estarrecedoramente tratado como piada), as duas mortes quase simultâneas da Vespa, o período sem poderes da Mulher Maravilha e o aleijamento da Batgirl (e implícito estupro), ou a morte da Big Barda (a mulher que é mais forte que o Super-homem!) na cozinha, o problema não é nos casos isolados - mas sim no fato de serem um padrão nocivo que atinge até personagens que deveriam ser ícones de afirmação, vide a infame "tentativa de estupro" em Buffy (não um caso de quadrinhos, mas notável mesmo assim). 

Mas vocês não precisam acreditar na minha opinião: pesquisem, leiam e vejam por si mesmos o quão entrelaçada na industria de quadrinhos está a misoginia, lamentavelmente. Um padrão que pode - e deve - ser mudado. Não podemos e nem deveríamos tentar fazer com que HQs sejam um clube do bolinha. 


*P.S.: Para quem afirma que homens também são objetificados em HQs, David Willis tem umas coisas pra te explicar...
Falsa equivalência.
P.P.S: 

Para quem diz que é um assunto irrelevante, e que mulheres não são o publico alvo,Willis mais uma vez - e há realmente de se questionar alguém que defende excluir 50% da população...



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Preconceito: Nerds e Misoginia

Não deve ser novidade para a maioria de vocês a infeliz abundância de comentários e atitudes preconceituosas, excludentes e intolerantes dentro do meio nerd. Desde o desdém exagerado pelos fãs de certas obras literárias, séries, jogos ou filmes, até formas mais "mainstream" de preconceito, como coletivo os nerds são notórios pelo preconceito. E de forma até contraditória, vendo que esse é um grupo que é frequentemente discriminado.

Mas nenhuma forma de preconceito é mais palpável entre os nerds do que a "boa" e velha misoginia. E depois se perguntam o porque de tão poucas "garotas nerds". Desde coisas pequenas como o desdém aberto a qualquer "gamer chick" e a ideia de que uma mulher não pode ser nerd se for minimamente sociável, até o abuso do conceito de estupro, o linguajar nerd acaba transbordando de ódio pelo sexo feminino.

Expressões como "Tits or GTFO", "Go make me a Sandwich" e "Back to the Kitchen" não são "piadas inocentes", assim como a abundância de personagens femininas que se resumem a "peitos e bundas ambulantes" ou "um macho com tetas" não é de forma alguma inclusiva. Estupro e outras formas de violência sexual são tratadas com banalidade. E na hora dos insultos? Quando o interlocutor é homem, o mais comum é se atacar a capacidade intelectual, ou a masculinidade (em si já um problema). Mas quando se trata de uma mulher? O ataque padrão é acusar de ser "uma vadia".

Para que não achem que estou inventando coisas, tenho abaixo três casos importantes - apenas alguns dentre tantos milhares diariamente. Devido ao meu "sumiço", nenhum desses casos é exatamente recente, mas são todos emblemáticos - e não tão extremos quanto possam parecer.


Primeiro, um caso que a maioria já deve estar bem familiarizado: A não tão súbita demissão de Noah Antwiler/ TheSpoonyOne do Channel Awesome/ThatGuyWithTheGlassses. Embora o caso em si tenha apenas sido deflagrado pelo notório sexismo do Spoony, com a piada de extremo mal gosto acima, dirigida a uma colega de trabalho, Hope Chapman, o que me levanta este caso neste sentido é a reação da fanbase do reviewer. 

Spoony foi demitido/se demitiu após um verdadeiro piti no Twitter, como resposta a um artigo da também integrante do Channel Awesome, Obscurus Lupa (Allison Pregler). A reação do Spoony em si já foi péssima: xingando a tudo e a todos, e acusando Pregler de ser uma "vadia". Mas a fanbase dele foi pior: segundo alguns fãs no forum SpaceBattles, isso foi parte de um plano maléfico dela junto a ex-namorada do Spoony, Scarlet, e a diretora de RH do CA, Holly, para se livrar dele "porque é isso que vadias fazem quando os homens estão longe". Desnecessário notar: As três receberam ameaças de estupro, e Holly foi acusada de "prestar favores sexuais" ao fundador do CA, Doug Walker, porque "essa é única coisa para a qual vocês prestam". Mas os caras que falaram essas coisas juram de pés juntos que não são sexistas!

E embora Spoony tenha o seu site próprio, que não foi afetado em nada pela demissão, e garanta que a "vagabunda" não tenha nada a ver com a demissão dele, fãs do colherento continuam a atacar Pregler. Me surpreende que Chapman não tenha sido bombardeada com insultos e ameaças de estupro. 


O segundo caso - e no meu ver mais gritante - foi o da blogueira Anita Sarkeesian, do site Feminist Frequency:  depois de iniciar um kickstarter para a produção de uma série de documentários da série Tropes vs Women, analisando certos clichês e figuras narrativas comuns, desta vez em videogames, Sarkeesian se viu alvo de um bombardeio constante.

Ameaças de estupro via e-mail, via telefone, até via correio - páginas vandalizadas, comentários ofensivos diariamente, e tudo isso não como resposta ao que ela disse, mas porque ela iria falar sobre sexismo dentro da indústria de games. Não foram poucos os comentários, posts e vídeos - alguns bem longos - afirmando categoricamente que ela não tinha nada a falar porque "games não eram lugar pra mulheres" e que ela não passava de uma "sapata vagabunda".

A mensagem desses ataques é bem clara: mulheres, fiquem caladas, aceitem que para a indústria vocês são só pedaços de carne, e se quiserem se expressar, que o façam num cosplay borderline erótico. Nada de opiniões ou querer respeito!

Felizmente, esse caso específico não ficou perdido apenas em meio a comunidade nerd, e foi coberto pesadamente por colunistas e blogueiros de vários setores da mídia. Além disso, o ataque constante foi "positivamente não produtivo": além de Sarkeesian não se acovardar perante a investida machista contra ela, mas o ataque atraiu publicidade e apoio ao projeto, e o que seria uma série pequena por apenas U$ 5,000, agora arrecadou mais de U$ 150 mil.


O caso final é este cara: o britânico James "Grim" Desborough, um autor de livros de RPG que recentemente publicou um artigo intitulado "Em defesa do estupro". Embora não seja algo tão ruim quanto o título faz parecer, ainda é uma defesa feroz da ideia de que "mais jogos precisam envolver estupro" e que "estupro é um elemento de trama fantástico" que precisa "deixar de ser visto como algo ruim".

Ninguém ficou muito impressionado com o artigo de Desborough, e a usuária do fórum da RPG.Net, MalaDicta tentou organizar uma petição para que as editoras deixassem de publicar o material do inglês. E foi ai que a bomba de fato explodiu.

A maior parte dos usuários da RPG.net estavam de acordo com boicotar Desborough, e concordavam que boa parte do material do dito-cujo era absurdo - entre eles, um jogo de cartas em que o objetivo é cometer mais estupros, e um suplemento de D&D com centenas de magias e itens mágicos voltados para facilitar, adivinhem só... estupros!

Porém, para alguns, e para uma horda de fãs do "macabro", quem reclamou precisava "crescer espinha" e "estupro não era nada demais". O resultado deve estar bem claro por essa hora: MalaDicta foi alvo de ameaças de estupro via e-mail, no telefone do trabalho, na casa dos pais, e até pelos correios, e após uma amiga dela ter sido quase violentada, decidiu retirar a petição, para que os ataques parassem - e não pararam.

A pior parte é que Desborough saiu dessa história até o momento querendo fazer o papel de vítima, alegando não ser nada misógino - só vítima de um bando de "vagabundas sem espinha" que não entendem como estupro é legal e precisamos de mais rpgs sobre isso!

A questão é que isso não é legal, de maneira alguma. E da mesma maneira, não é algo que se trate, como alguns dos fanboys do Spoony, do Desborough, e alguns dos agressores da Anita Sarkeesian sugeriram, algo que "se leve na brincadeira". Ainda mais quando são pessoas que ao mesmo tempo que dizem que "não há misoginia na web" e "os homens sim é que são discriminados", ameaçam estuprar repetidas vezes uma blogueira por dizer o que ela pensa.

Se alguém quiser dividir suas histórias sobre misoginia, ou quiser fazer aquilo que já espero: me atacar, sinta se a vontade.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Minorias nas HQs: Homossexuais e os clichês a respeito

Um texto um pouco mais complicado, mais sério e mais pungente hoje, tratando de uma questão bem importante: a maneira que personagens LGBT (ainda é essa a sigla?) aparecem em quadrinhos. A representação de minorias nas histórias em quadrinhos sempre foi um tanto problemática - é só notar o número de personagens que precisam ter um "negro" colado no nome, ou o número de heróis cujos poderes são "inspirados" em sua origem geográfica - mas acho que um dos casos mais complexos atualmente é dos personagens homossexuais: De forma geral, a grande maioria dos casos são apenas caricaturas inseridas meio que a força para dizer "olhem, nós somos progressivos".




Caso este do Northstar acima, da Tropa Alfa: um dos primeiros personagens assumidamente homossexuais na Marvel - e provavelmente o primeiro herói a sair do armário na editora, o fato é que Northstar cai em um erro comum de narrativa: ao invés de se lidar com a homossexualidade do personagem de forma real, ele se resume a gritar ao mundo "Eu sou gay" - e de tempos em tempos. Só para jogar sal na ferida tosca, a história  em que o herói se assume - em Alpha Flight # 106 - o personagem está "morrendo de aids mutante". Sabe, por que gays tem aids.

Certo que esta história rolou em 1992, uma época mais restritiva neste sentido. Porém, Northstar "voltou atrás" várias vezes, e mesmo ignorando o constante "EU SOU GAY" do canadense, ele ainda é uma caricatura, facilmente sendo o membro mais afeminado da tropa Alfa - e passados 19 anos desde que ele saiu do armário, até hoje ele não esteve em NENHUM relacionamento. Ou seja, ele é gay, mas isso se resume a algo que ele afirma o tempo todo, sem que isso apareça.

Mas nem tudo são caricaturas no mundo dos quadrinhos, e as vezes personagens secundários são um meio melhor de lembrar os leitores de que, sim, gays existem, e não, eles não são imorais. Um caso muito bem escrito disto é a série Scott Pilgrim, do canadense Brian Lee O'Malley. temos dois personagens "do elenco principal" que são gays: o companheiro de quarto do protagonista, Wallace Wells, e o guitarrista da banda Sex Bob-omb, Stephen Stills. Enquanto Wallace já é assumido desde o primeiro capitulo, Stills se assume somente no último volume - para a surpresa total do leitor e de Scott. Mas ambos são personagens que vão além de "ah, ele é gay" .

Wallace em particular consegue simultaneamente cair dentro do esteriótipo de promiscuidade - é fácil perder a conta de com quantos caras ele fica ao longo da série - e manter um dos raros relacionamentos saudáveis em todo o elenco de Scott Pilgrim. Além disso, Wells é claramente o melhor amigo que Scott tem, e provavelmente uma das únicas pessoas que o aguenta.

Outro caso de destaque neste sentido era o editor Arnold Roth, nos quadrinhos da Marvel: amigo de infância do Capitão América, Roth se destaca da maioria dos personagens gays de HQs por sair completamente dos clichês. Ele não é um rapaz jovem e afeminado ou vaidoso: é um senhor calvo e gordo de meia idade. Também não é promíscuo, mantendo um relacionamento de 30 anos com o bibliotecário Michael (referido na década de 80 como seu "companheiro de quarto", embora o dialogo deixe claro o relacionamento). Infelizmente, Roth caiu em outra armadilha de personagens minoritários: serviu de exemplo para uma trama lidando com o preconceito, que terminou com o Barão Zemo matando o seu namorado.


E aí nós temos os casos em que, sim, temos personagens gays, não caricatos e que não são personagens de fundo - e que são pouquíssimos. São casos como o Hulkling e o Wiccano, de Jovens Vingadores - o relacionamento dos dois é bem escrito, bem desenvolvido, e nenhum dos dois cai em uma avalanche de clichês. Curiosamente, no começo de Jovens Vingadores, quando o Wiccano - então Asgardian - foi se assumir como herói, seus pais acharam que ele estava saindo do armário, e ao contrário de muitas backstories de HQs, ao invés de rejeitar o fato, a reação foi "bem, dã, era óbvio".


Outro caso forte - e ainda mais ousado - é de Runaways: a dupla Karolina Dean e Xavin, uma lésbica e uma transsexual. Quando o relacionamento das duas começa, Xavin - um skrull - apenas se finge de mulher para deixar a parceira mais "à vontade". Porém, com o tempo, o que ocorreu foi que Xavin se assumiu como mulher - tarefa fácil para um metamorfo como um Skrull. Infelizmente, outro caso trágico, e o relacionamento acabou quando Xavin foi levada pro espaço pela espécie da Karolina - tomando o lugar dela para que a namorada não sofresse. (o que só deixou as coisas piores).

E saindo do ambiente de Super-Heróis, temos o que eu considero o caso mais "você fez isso direito": Ethan Siegal, de Shortpacked! - o protagonista do webcomic, homossexual assumido, e de forma alguma caricato ou estereotipado. Ethan não é o único personagem gay em Shortpacked!, e a trama não gira apenas em torno dele ser gay: isso é um componente integral do personagem, mas não o único. E um aspecto de destaque: durante muito tempo, Ethan tinha um dos únicos, se não o único, relacionamento saudável em Shortpacked!, antes de terminar com o namorado por uma questão completamente estúpida. Ponto para David Willis nesse sentido.

É claro, gays não são a única minoria ferrada por texto ruim e por tentativas forçadas de inserção nas HQs e nos Webcomics - são só a mais pontual, frente a polêmica artificial criada por homofóbicos a respeito do PLC 122 e do kit anti-homofobia. Futuramente eu pretendo abordar as outras uma a uma, talvez começando pelos eternos mestres do kung-fu - afinal TODO personagem asiático em quadrinhos sabe artes marciais.

domingo, 25 de setembro de 2011

Vlog: Nerds e Preconceito


Sem mencionar especificamente ninguém, mas... parem de xingar pessoas por gostarem do que vocês não gostam.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Jovens Titãs terá herói gay caricato

SÉRIO DC? SÉRIO?
Os quadrinhos dos Novos Titãs terão um herói gay, anunciou o desenhista Brett Booth, via twitter, e já causou polêmica. O personagem, chamado Bunker, é um adolescente mexicano com o poder de criar campos de força em forma de tijolos, e terá a homossexualidade bastante escancarada. E por escancarada, querem dizer que ele é um daqueles gays caricatos, e que se resumem a isso - uma caricatura, a popular "bichona". Isso é tão errado...


“Queríamos um personagem interessante cuja homossexualidade fizesse parte dele, não que ficasse escondida. Claro que existem gays que você nem sabe que são gays de cara, mas tem outros que são mais extravagantes, e achamos que seria legal ver um deles aparecer nos quadrinhos. A gente exagerou? Acho que não. Quero que você saiba que ele é gay assim que ver. Nossos Titãs tratam em parte de diversidade de TODOS os tipos de jovens reunidos para se ajudar” afirmou Booth, respondendo às polêmicas.

Sou só eu que vejo nisso uma cara de pau imensa? Por outro lado, é a DC, e quem viu meu vlog sabe minha posição quanto as tentativas da DC de por "variedade". Não tenho dúvidas que Bunker será infelizmente definido exclusivamente por ser gay, sem nenhum outro traço de personalidade ou interesses além deste. DC, já passou da hora de vocês entenderem criar um personagem gay só por ser gay não é representatividade - é na melhor das hipoteses caridade, na prática é condescendência. 

Segundo o desenhista ele será um cara mais alegre, festivo, sensível e afeminado do que qualquer outro personagem que se tenha visto nas HQs da DC, e sempre teve sua homossexualidade aceita pela família e pelos amigos. Resta saber qual será a próxima idéia "genial" da editora. Quem sabe um herói negro que vive no gueto, é gangsta e adora comer frango frito? Ou uma heroína que vive comprando sapatos, reclamando da falta de homens bons, e se preocupando com o peso? Ah, já sei! Um herói arabe com o poder de se explodir! GENIAL ¬¬


O novo herói só vai aparecer na edição 3 de novembro.
 
Com informações do Vírgula