Quando eu achava que as coisas não podiam ficar piores... Nick Spencer vai e mete mais um retcon na história do Capitão América: que a versão do herói que foi alterada por um cubo cósmico era a versão HERÓICA e que o que o Caveira Vermelha fez com ajuda do cubo senciente Kobik foi desfazer as alterações feitas por um cubo cósmico durante a segunda guerra mundial - cubo cósmico usado para impedir que Adolph Hitler vencesse a guerra (como fica aquele papo que "A Hydra não é nazista" mesmo?).
Como se já não bastasse a cena (desnecessária e insultosa) de Rogers dizendo a um Tony Stark em coma que "tudo que viria era para destruir tudo aquilo que ele fez".
Ao longo dos anos, a Marvel fez muita coisa idiota com seus personagens. Criou meia dúzia de Hulks diferentes, fez o Coisa usar uma máscara de Bobba Fett barata, revelou que o Homem de Ferro era um super vilão e depois desfez isso transformando ele em um adolescente. Criou o imenso imbróglio que foi a Saga do Clone, toda a confusão que são os quadrinhos dos X-Men, forçou todos os seus heróis em armaduras HARDCOREEEEEE nos anos 90, encalhou seus personagens em mega-eventos sem pé nem cabeça pelas duas décadas do século XXI e nem vamos tocar no fiasco de One More Day.
Cyclonus, Tailgate e Getaway: um
triangulo amoroso a moda cybertroniana.
Nós jogamos contra a vida, e perdemos.
Quem me acompanha há algum tempo já deve ter notado que eu adoroTransformers. Embora a ficção da franquia seja de forma geral fraca e muito boba, os quadrinhos da IDW tem desde 2009 demonstrado que dá sim pra fazer boa literatura a partir de uma linha de brinquedos. E é desse improvável material que James Roberts usa para tecer, entre tantas subtração, uma longa narrativa sobre relacionamentos abusivos e manipulação emocional.
Falo é claro do triângulo amoroso Tailgate/Cyclonus/Getaway, em More Than Meets the eye. Relações amorosas já haviam sido abordadas antes no mesmo título (como o casal Chromedome e Rewind, os relacionamentos no passado de ambos, as motivações trágicas de Brainstorm, e uma insinuação não tão sutil entre Orion Pax e o senador Shockwave), mas a Trindade se destaca por vários motivos.
Com essa linha de trama em particular, James Roberts abordou um aspecto crucial de relacionamentos que não era de se esperar em um quadrinho sobre robôs-que-viram-coisas. As maneiras que relacionamentos impactam na vida de alguém já tinham sido discutidas na vida de Domey e Rewind - em particular, o quanto a perda afetava alguém, como relacionamentos tem seus altos e baixos, e como o amor pode evitar que um ciclo auto destrutivo. Desta vez, no entanto, o foco era como relacionamentos podem ser tóxicos. E como o amor pode ser uma ferramenta cruel para manipulação.
Um inocente entre dois canalhas
Tailgate, sendo... Tailgate
Vamos começar pelas partes envolvidas. Introduzido na mini-série Revelation, Cyclonus é uma relíquia de uma era distante, um veterano da “era dourada” de Cybertron. Pintando a si mesmo como um guerreiro-filósofo, Cyclonus sonhava com uma nova ordem cybertroniana em um universo caótico - esperando que um mundo ordenado desse estabilidade a sua própria mente perturbada e violenta. Um dos sobreviventes do “universo morto”, Cyclonus é odiado por todos a bordo da Lost Light, por todas as vidas que tirou quando servia sob Galvatron. A única exceção é seu completo oposto e amor improvável: o pequeno e inofensivo Tailgate, introduzido em More Than Meets the Eye #1. Aos seis milhões de anos, Tailgate é uma relíquia do passado, mas ao contrário do cínico e anti-social Cyclonus, ele é puramente inocente, tendo vivido meras duas semanas antes de perder a consciência por eras a fim, fingindo uma história grandiosa e heróica para esconder o fato que ele não viveu. Já Getaway da Incursão de Corcapsia nos foi introduzido no arco “Remain in the Light” (MtMtE #17-22). Um agente do “Bureau diplomático” (um belo eufemismo para “serviço secreto”), o artista de fugas Getaway é tudo que Cyclonus não é: carismático, carinhoso, emotivo e dedicado a fazer o relacionamento “dar certo”.
Qualquer semelhança com Hank Pym é coincidência.
Ao longo da “primeira temporada” de MtmtE, Cyclonus e Tailgate desenvolveram uma amizade improvável, sustentada em dividirem um quarto (já que ninguém mais queria dormir no mesmo quarto que Cyclonus) e na ignorância do pequenino sobre, bem, tudo. Essa relação começou violenta (MtmtE #4 Life After the Big Bang) e unilateral antes de das barreiras do guerreiro cederem aos poucos. Sentimentos fortes se desenvolveram nesse período, com demonstrações de afeto sutis, marcadas pelas neuroses particulares de Cyclonus. Esse afeto não impediu o veterano de ser rude e insensível com Tailgate. São cenas conflitantes e tocantes - e em mais de um caso, o comportamento insensível é claramente bem intencionado, em forma deturpada. Quando Tailgate foi informado por Ratchet de que ele estava morrendo (de velhice), Cyclonus se desfigurou como uma forma estranha de partilhar daquele sofrimento. Mais tarde, ele ofereceu um conselho cruel: não mantenha esperança de uma cura - porque sem uma esperança, não há nada a ser perdido..
Tailgate em seu leito de morte (posteriormente evitada).
Ao fim de Remain in The Light, Cyclonus salvou a vida de seu pequeno companheiro, mas perdeu sua centelha para o carismático Getaway - que não tratava o ingênuo com insultos, cinismo e violência. Getaway parecia um par perfeito: carinhoso, atencioso, disposto a ensinar coisas novas... Em MtmtE #30 (World: Shut Your Mouth: a Beginner’s Guide to Predestination), ele demonstrou aos leitores como isso não era tão real, usando da sede de atenção de Tailgate para se aproximar dele, simpatizando com sua mentira sobre heroísmo e contando sua não-tão-ilustre carreira militar. Quanto mais o tempo passava, mais Getaway e Tailgate passavam juntos (uma coisa recorrente no fundo de MtmtE em sua “segunda temporada”). E na edição #40 (Our Steps will Always Rhyme), o “par perfeito” novamente demonstrou lado manipulador, tentando afastar de vez Tailgate e Cyclonus dizendo que o ultimo lhe confidenciou que achava Tailgate um “covarde simplório” por seu medo de morrer, brincando com os sentimentos do pequenino. De um “amigo” rude e violento, Tailgate agora era vítima de um predador emocional.
Isolando o alvo emocionalmente...
De um lado, um amor cruel. Do outro, uma crueldade gentil
É uma cilada Tailgate!
O comportamento emocionalmente abusivo continuou no #47 (The Lopsided Triangle). Roberts expande o conceito de Conjunx Endura (o casamento cybertroniano) com a introdução do “Conjunx Ritus”, os rituais em preparação para a união. Getaway os explica para Tailgate, informando o que dos quatro atos necessários, eles já compraram três, faltando apenas um: uma prova de devoção. E como essa prova, Getaway quer que Tailgate faça mneumocirurgia em Megatron. Um ato que certamente resultaria na morte brutal e dolorosa de Tailgate.
Até este ponto, Getaway manipulou emocionalmente Tailgate rumo a uma união amorosa - da qual logo se descobre que ele não tem nenhum interesse: Tailgate é apenas um fantoche para o insensível e vingativo Getaway, planejando usar o seu “amado” como um sacrifício para acabar com qualquer possibilidade de redenção para o ex-líder dos Decepticons. Para esse fim, ele se aproveitou da carência afetiva de Tailgate e de suas inseguranças com Cyclonus.
Ao mesmo tempo, depois de afogar suas mágoas na bebida, Cyclonus chega a suas próprias conclusões quanto a Tailgate. Depois de ver o quão próximos Getaway e Tailgate estão, ele vai “chorar as mágoas” com a última pessoa que esperava o ver: Whirl, o psicótico, maníaco e rancoroso autobot que outra hora será alvo de um perfil completo. Nessa conversa, Cyclonus reconhece duas coisas: que ele tem sentimentos por Tailgate, mas não há nada que faça ele merecer ser retribuído - e Whirl deixa claro que o melhor que ele tem a fazer é deixar ele ser feliz (ignorando as intenções de Getaway):
"Em breve: Cyclonus de Trixylix em "Meu amigo tem um novo amigo!"HA! Seu safado! Eu achei que isso era vida-ou-morte, não carinha-triste boo-hoo problemas no relacionamento. Aqui vai. Toma uma verdade dura, de graça. Por pura coincidência, você e o Botão de Pânico terminaram sendo colegas de quarto. O que faz você pensar que há qualquer conexão além disso? A única coisa que vocês tem em comum é uma porta da frente....
"Eu salvei a vida dele."
"E? E o que? Ele te deve? Você deve a ele? Ele não tem permissão pra fazer outros amigos?”
"Eu... sinto por ele."
"Novamente: e daí? Eis uma ideia: quem sabe ele simplesmente goste do Getaway mais que ele gosta de você. Alguém acharia isso supreendente? O que você pode oferecer a ele além de sua desaprovação garantida e um rosto como um funeral? Tudo que você faz é olhar para a janela! Meu conselho para você? Supere isso - por que ele claramente te superou. E vamos encarar.. ele está melhor com o outro cara.”
Tem um aspecto de personalidade muito forte nesta conversa: Cyclonus pede conselhos a Whirl justamente por que saber que Whirl é, bem, um babaca - mas um babaca que diria aquilo que Cyclonus não quer ouvir: a verdade. Os eventos que vem depois dessa conversa ficarão para outro artigo: a edição saiu no mês passado, e a conclusão desse triangulo amoroso (onde uma das partes não tem sentimento algum pelo amor disputado) tem muito a dar ainda - só posso dizer o quase óbvio: Cyclonus é retribuído, sim, apesar de ter empurrado Tailgate para longe com sua incapacidade afetiva. Mas não há um final feliz, por ora.
Da ficção para a realidade
Os dois relacionamentos de Tailgate tem marcas claras de abuso. Cyclonus, emocionalmente distante, desaprovador e verbalmente violento (quando não fisicamente). Getaway, por sua vez, demonstrando todos os traços de um predador sexual, embora seus interesses com o “jovem” não sejam sexuais. Ele sabe as palavras certas para manipular seu parceiro, torce-lo a sua vontade, e fazer parecer que ele queria isso o tempo todo.
A forma perturbada de Cyclonus demonstrar preocupação:
Auto mutilação.
Pessoas assim existem. Cyclonus faz o tipo mais comum de abusador, o tirano emocional, que não tem nada de positivo para dizer a pessoa que ama, e apenas a joga para baixo mais e mais. Assim como muitos abusadores desse tipo, ele realmente ama a sua vitima - mas seus problemas pessoais fazem desse amor uma coisa doentia e tóxica. Mas diferente da maioria dessas pessoas, ele reconhece que é um problema, que ele não faz bem para Tailgate, e que suas maneiras de expressar afeto são pouco diferentes da maneira que demonstra desgosto.
Getaway, por sua vez, é um sociopata - ele não vê problema em manipular e usar Tailgate (ou qualquer outro: Tailgate era só o ‘trouxa mais fácil’) para seus próprios fins, e descarta-los mais tarde. É o tipo de cara que seduz com promessas de amor perfeito e devoção, apenas para descartar mais tarde, depois de levar pra cama. Não é improvável pensar que no caso (implausível) de Tailgate sobreviver a seu “ato de devoção’, Getaway seria um “marido” mais abusivo e insensível que Cyclonus era como “só amigo”.
Getaway, dizendo exatamente o que Tailgate quer ouvir
Cyclonus está longe de ser o tipo que agride fisicamente o companheiro (embora tenha tido incidentes disso antes de desenvolver sentimentos por Tailgate), mas ainda assim é um relacionamento tóxico, do tipo que deixa a pessoa se sentindo “um nada”. Getaway, por outro lado, há pouco que leve a pensar que ele não seria fisicamente abusivo depois que seu uso para Tailgate acabasse.
Cyclonus, apesar de tudo de ruim que já fez, pode se redimir - a primeira parte ele já fez: reconhecer que é um problema. O resto vai depender do futuro e de se ele vai querer mudar e se esforçar nisso. Getaway e pessoas como ele não tem salvação: relacionamentos para eles são meios para um fim, sem ter qualquer valor na ligação afetiva em si. Nada disso faz de Cyclonus alguém inocente, no entanto. Assim como outro abusador famoso de quadrinhos não pode ser inocentado do que fez só porque se arrependeu e se esforçou para mudar - mas o abuso mútuo entre Hank Pym e Janet van Dyne é assunto para outra hora.
Esta semana, a Mecca do conservadorismo americano se envolveu em uma polêmica fabricada. A Fox News deu um legítimo chilique com a trama de Captain America: Sam Wilson #1. O problema? O já-não-tão-novo Capitão América agir como... Capitão América.
Explicando melhor: a revista, escrita por Nick Spencer mostra o herói cortando seus laços com o governo americano e com a S.H.I.E.L.D. para se focar nos problemas do povo. A decisão do ex-assistente social de lidar com questões políticas que afetam a população carente diretamente é recebida com gritos de “Capitão socialista” e “Não é o meu Capitão América”. Bem como fez a Fox News. Em sua primeira aventura, Sam lida com um problema muito real: a xenofobia enfrentada pelos imigrantes vindos do México. Problema representado pelo grupo extremista Filhos da Serpente, uma alegoria clara para a Ku Klux Klan, que estava matando quem tentava a travessia.
A fúria e indignação dos conservadores - expressa primariamente através da fox News - foi clara. Para os apresentadores do programa Fox&Friends (por o vídeo), a revista era “um ataque a conservadores” e uma afronta aos EUA. É importante ressaltar que o que incomodou a Fox News não foram os valores dos Filhos da Serpente (novamente, uma representação da KKK), mas o fato deles serem lidos como os vilões.
Entre as queixas, repetidas por outros autores conservadores, estavam o Capitão América não estar “impedindo imigrantes que estavam trazendo traficantes e estupradores para América; um pedido de retorno aos “velhos tempos em que o Capitão socava Hitler”; que os liberais* “criassem o seu próprio Capitão América”; e que “deixassem política fora dos quadrinhos”. Além disso, se chocaram com o fato do líder do grupo ser um americano, e não “um radical islâmico, um membro da ISIS, determinado a destruir a civilização ocidental”.
Inimigos “novos”?
Então vamos por partes: Não é de se admirar que a Fox News não perceba que a sua narrativa quanto a imigração é extremamente xenófoba. Tanto que ela repete clichês racistas emitidos pelo pré-candidato a presidência Donald Trump. Em sua visão de mundo, obviamente alguém chamado Capitão América deveria manter essa visão “patriótica” de “América para Americanos”. Nessa linha de pensamento, um grupo armado de “cidadãos de bem” protegendo a nação contra “os imigrantes” só poderiam ser os heróis - e é um tanto assustador que uma das maiores redes de notícias dos EUA tome o partido da KKK.
A Fox News e seus colegas em sites como Breitbart.com, Daily Caller e o colunista Allen B. West (que hilariamente disse que Sam Wilson era “O corvo”) trataram os filhos da Serpente como algo novo. Como se fosse um sinal dessa “ditadura do politicamente correto” e esses “tempos loucos” com um Capitão América NEGRO. Exceto que o grupo não é nada novo: a primeira história envolvendo a caricatura da KKK foi publicada em 1966 - antes do surgimento do Falcão.
A retórica do grupo é a mesma de todo grupo xenófobo de extrema direita: “Eles estão roubando nossos empregos”, “eles são criminosos e parasitas”, ‘são uma ameaça a pureza nacional”, o mesmo discurso pronto de ódio visto contra imigrantes, minorias raciais, étnicas e religiosas desde que o mundo é mundo. E que hoje no Brasil é vista contra os imigrantes haitianos e começa a ser vista contra os refugiados sírios.
E é um discurso contra o qual o Capitão América sempre se opôs, desde sua criação - não sem motivo, dado que esse era o discurso da Alemanha Nazista contra os judeus. O detentor original do título, Steve Rogers, era ele próprio filho de imigrantes irlandeses. O único detentor “oficial” do escudo que apoiaria o discurso dos Filhos de Serpente é John Walker - criado justamente como crítica a mentalidade reacionária da direita republicana.
Capitão América anti conservador? Sim: desde 1942
Nixon desmascarado, provavelmente.
Os Filhos da Serpente (em suas multíplas iterações) não são o único grupo de extrema direita contra o qual o Capitão América se opôs. Em 1987, John Walker enfrentou os Watchdogs - com cujos ideais ele simpatizava. O grupo se opunha ao “feminismo, comunismo, homossexualismo, aborto, pornografia, casamento interracial e imoralidades” (soa familiar?). Em 1974, Steve Rogers e Sam Wilson enfrentaram o Império Secreto, que incluia vários membros do alto escalão do governo Nixon (incluindo o próprio Nixon). A conspiração visava instalar uma ditadura conservadora nos EUA, sob a desuclpa de “combater a ameaça comunista”.
Os Watchdogs, queimando livros "imorais".
O personagem que trajou o uniforme nos anos 50, William Burnside (o Cap dos sonhos da Fox News), posteriormente se tornou o Grão Diretor, um dos líderes da Força Nacional. O grupo era essencialmente o partido nazista americano. Burnside também foi membro dos Watchdogs, e fez parte (inadvertidamente) de um complô conservador para colocar “um verdadeiro americano” na presidência - dito “verdadeiro americano” era um fantoche do Caveira Vermelha.
Além disso, muitos de seus inimigos menores estão alinhados com a direita conservadora dos EUA. Ossos Cruzados, antes de se unir a Hydra, era um miliciano neonazista. O Flagelo do Submundo era um vigilante movido a idéia de “bandido bom é bandido morto” (muito como o Justiceiro, que Rogers e Wilson se recusam a ver como “herói”). Esmaga-Bandeiras era um radical anti estado, ligado a um subgrupo em particular da direita americana, os Sovereign Citizens**. Nuke, por sua vez, representa o nacionalismo cego na forma de um soldado psicótico devotado a sua versão distorcida do país. O Capitão também conquistou a inimizade das forças armadas (ao fazer a coisa certa, e se opor a golpes de estado, esquemas de financiamento de rebeldes, bombardeios “por precaução” e outras medidas tão comuns.
Alguns anos atrás, Sam e o então capitão América James "Bucky" Buchanan Barnes
lidaram com o fascismo por trás do discurso do Tea Party. Na trama, o movimento era
uma fachada para o Caveira Vermelha.
Dos (muitos) inimigos de extrema direita do Capitão, o mais bizarro é Hate Monger, criado em 1963 (no Quarteto Fantástico), vulgo o clone de Hitler. Munido de um “raio de ódio”, o clone de Hitler se vestia como um membro da KKK, e o discurso narrativo por trás dele era óbvio: se você se alinha com a KKK, você se alinha com Hitler.
Até nos seus primeiros quadrinhos, na Era de ouro dos quadrinhos, Rogers enfrentava não só a “ameaça nazista”, como também a ameaça de grupos extremistas dentro dos EUA. A primeira encarnação do Caveira Vermelha, George Maxon, era um empresário americano que se aliou aos nazistas por crer que os ideais de Hitler eram “o melhor para os EUA” (caracterização dada muito mais tarde, por sinal: na sua curta aparição em Captain America #1, Maxon só faltava ter um bigodinho para torcer e fazer “mwhahahahah” para ser a caricatura de um vilão).
“Tirem a política dos quadrinhos”.
"Apolítica"?
O pedido por “tirar a política dos quadrinhos” chega a ser cômico, especialmente se tratando de Capitão América, um super herói que nasceu como parte de um discurso político. A começar pela famosa capa do Capitão dando um murro na cara do Führer: em março de 1941, quando a revista foi publicada, os EUA ainda não haviam entrado na 2ª guerra mundial, e a maior parte da população e do congresso eram contra a participação dos EUA no conflito.
Com o personagem, Joe Simon e Jack Kirby davam uma mensagem clara: na visão deles, os ideais americanos eram incompatíveis com a ideia de “deixar Hitler de lado”. Da mesma maneira, o “übermensch” ariano era usado como o herói - um supersoldado loiro de olhos azuis, fruto da ciência nazista - para deixar claro que o verdadeiro “superhomem” jamais compactuaria com o nazismo. Lembrando que Rogers é um progressista para os padrões de hoje. Imagine então para os padrões dos anos 40.
Os conservadores fizeram um pedido de que os “liberais” criassem seu próprio Capitão América. Como Kurt Busiek fez questão de notar no Twitter, eles já o fizeram, em 1941. Vale lembrar que Jack Kirby e Joe Simon eram New York intellectuals progressistas, alinhados com o “New Deal” e muito mais próximos do socialismo do que do conservadorismo. Antes de trabalhar com super heróis, Simon fora um cartunista político, e a dupla criou o Capitão na intenção de fazer um discurso político. E que foi reapropriado pelo sistema como um ícone de propaganda.
John Walker: o Capitão dos sonhos dos conservadores.
E um fantoche do Caveira Vermelha.
O Capitão América original sempre foi um “liberal” progressista e anti nacionalista. Isso não é uma invenção recente, nem uma “jogada publicitária” alinhá-lo com a esquerda americana. Da mesma maneira, Sam Wilson foi criado como um assistente social e ativista e seu surgimento foi inspirado pelos ativistas em movimentos contra o racismo no final dos anos 60. A última coisa que essas duas versões do personagem seriam é conservadores, nacionalistas e “patriotas”. Quem é assim é John Walker, o Agente Americano, que foi criado para ser tudo que o Capitão América não deveria ser (e para ser o Capitão que os republicanos gostariam de ter a seu serviço).
E assim o personagem sempre foi. O Capitão América lutou contra o racismo nos anos 60 (e ao fim da década, estreou o Falcão em suas páginas). Enfrentou a corrupção no governo americano e o autoritarismo nos anos 70; largou o patriotismo cego após Watergate, vagando pelo país como o Nômade. Novamente abriu mão do título quando o governo lhe exigiu que trabalhasse para o governo Reagan, nos anos 80, à época do escândalo Irã Contra. Discursou contra a homofobia em uma época que a editora proíbia de se falar “gay”. Reconheceu os crimes cometidos pelos EUA ao longo do século XX. Discursou contra a islamofobia no auge do pânico sobre terrorismo e se opôs de multiplas formas (algumas metafóricas, outras explícitas) aos ataques a liberdades civis e de informação durante a “Guerra ao Terror”.
Até as histórias usadas no cinema são profundamente políticas. O primeiro vingador tem o mesmo discurso contra patriotismo cego que sempre marcou o personagem (pra ressaltar: o que motiva Rogers a se alistar no exército não é a ideia de que “a América é Grande”, mas o reconhecimento que o Nazismo não está tão distante dos EUA). Soldado Invernal trata da questão de “ataque preventivo” e afirma explicitamente que a política externa dos EUA (“gentil demais” para os republicanos) é algo que sairia da mente de um nazista. Guerra Civil, por sua vez, se baseia em uma história que discute serviço militar obrigatório, direito a informação, liberdades civis e direitos humanos.
Nada mai anos 90 que isso.
Basicamente, “tirar a política do Capitão América” é torná-lo uma sombra de si mesmo, um personagem irrelevante (como, em minha opinião, ocorreu quando Rick Remender jogou ele em outra dimensão, ou quando ele virou um lobisomem - sim, isso aconteceu!). E dado o histórico do personagem, ele nunca deveria agradar os conservadores da Fox News, que se compadecem por estarem falando mal da Ku Klux Klan.
Mas e o Estado Islâmico?
Dá pra ver que é "apolítico" e "nacionalista"...
Quanto ao choque do apresentador da Fox News, Clayton Morris (auto proclamado especialista no personagem) do Capitão estar enfrentando conservadores e não o estado Islâmico? Bem, uma pergunta simples: o que é uma ameaça maior à democracia americana, um grupo terrorista cuja zona de influência está no Iraque e na Síria, ou radicais nacionalistas e xenófobos despejando discurso de ódio dentro do país?
Imigração moldou e formou os EUA. Esperar que o Capitão América - a representação de tudo que o país deve e pode ser - vá e lute contra ela com base em argumentos de ódio é absurdo. Desde seus tempos como o Nômade, o que o Capitão América mais combateu foi a podridão interna dos EUA: a corrupção, a desigualdade, o ódio, o preconceito, a ignorância. E é justamente isso que Sam Wilson está fazendo: combatendo a ala podre da sociedade americana. Pena que alguns tenham se sentido ofendidos pelo personagem estar lutando contra a KKK, e não ao lado dela.
O Capitão de Ultimates: reacionário,
nacionalista e bruto.
Eu até acho engraçado que tantos conservadores (aqui e lá) digam adorar o Capitão América. Talvez porque tenham lido a versão de Mark Millar para o personagem na linha Ultimates, esse sim um reacionário xenófobo, arrogante, e disposto a fazer qualquer coisa “pela América”. Ou mais provavelmente porque não leiam, e achem que “Capitão América” só pode ser um cara conservador, moralista e militarista - como insistem as críticas ignorantes de parte da esquerda.
Mas para esses conservadores e libertários que querem um herói mais parecido com eles, posso recomendar alguns. Para começar, o Justiceiro (para quem bandido bom é bandido morto, ressalto). Embora tenham saído de linha, o Agente Americano (vulgo, o Capitão América que existe na cabeça deles) e o Fighting American.Questão, Senhor A e Rorschach - todos radicais objetivistas, embora o Questão tenha se tornado muito mais do que isso nas mãos de Dennis O'Neill; O Homem de Ferro (criado como uma réplica do herói Randiano John Galt), o homem que se fez sozinho, sem ajuda de ninguém, e sem depender do Estado; Hal Jordan (por muito tempo, O cara de direita no universo DC, colocado em oposição eterna ao Arqueiro Verde) e é claro, a versão de Frank Miller para o Batman (o extremo do libertário radical, um sovereign citizen com MUITO dinheiro e que não reconhece a autoridade do Estado).
O terrorista sendo interrogado é posteriormente
jogado em um triturador.
Mas para os que pensam como a Fox News, e querem alguém que pense justamente como eles, eu recomendo outra obra de Frank Miller: Terror Sagrado. Nela, vão achar toda a demonização de estrangeiros (especialmente árabes) que podem sonhar, e “heróis” durões dispostos a torturar e matar os inimigos da civilização ocidental.
* A centro esquerda americana ** Movimento libertário radical que não apenas se opõe a autoridade do Estado e das leis, mas crê que as mesmas não se aplicam a eles por motivos... confusos.