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| Alguns Go-bot comuns. |
Existe uma linha de brinquedos da qual eu pessoalmente tenho que falar. Uma linha que marcou e definiu o mercado de brinquedos dos anos 80. Uma linha que trazia duas raças de robôs de um planeta morto, trazendo sua guerra milenar para o planeta terra, disfarçando-se entre os veículos terrestres.
Falo é claro de Transformers O Desafio dos Go-Bots, da Tonka. Em termos de premissa, era exatamente a mesma coisa que o seu concorrente mais bem sucedido. Curiosamente, a linha, que reaproveitava moldes de Machine Robo Cronos, da POPY, uma subsidiária da Bandai, foi lançada alguns meses antes de Transformers (embora a ficção de Transformers e o desenho antecedessem a ficção de Go-bots).
Go-Bots é uma das linhas mais injustiçadas da história dos brinquedos. Sim, eles são uase a mesma coisa que Transformers, e sim, eles são menores e mais simples. Mas o grau de ódio desferido contra os Go-bots não tem igual nesse planeta. Qualquer discussão sobre o tema, e nerds revoltados começam a falar como se os coitados fossem a segunda vinda da peste.
O Desenho
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| Nossos heróis. |
A trama era basicamente a mesma dos seus concorrentes: o planeta Cybetron Gobotron se encontrava destruído após milênios de guerra incessante entre os malignos Decepticons Renegados e os heróicos Autobots Guardiões. Exilados de seu mundo natal, os Transformers Go-Bots traziam sua guerra para a Terra, disfarçando-se entre os veículos locais. Enquanto os Renegados e seu líder Cy-Kill visavam dominar o planeta, os Guardiões comandados por Líder-Um protegiam a humanidade. Nada muito criativo - e não é como se o concorrente fosse um primor de originalidade. Outras linhas a época usavam a mesma premissa (nenhuma de forma tão descarada quanto Dinozaucers, que lamentavelmente não teve brinquedos exceto bizarramente no Brasil).
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| Transhumanismo: O cérebro orgânico de Crasher. |
Mas haviam diferenças notáveis. Enquanto os Transformers eram de fato formas de vida mecânicas, os Go-Bots eram os últimos remanescentes de uma civilização orgânica, devastada pela guerra. Milênios antes de sua chegada na Terra, após um desastre natural que ameaçou destruir o planeta, milhares de “Gobings” tiveram seus cérebros transplantados para corpos mecânicos pelo misterioso “Último engenheiro”, a última esperança de sua civilização. Infelizmente, essa tragédia serviu apenas como uma linha solta na história de origem - enquanto Go-bots trazia elementos de transhumanismo em sua narrativa, esses elementos eram puramente decorativos.
Embora a linha sofresse da mesma “síndrome de smurfette” que muitas séries da época (e até hoje), com uma representação mínima de personagens femininas, Go-bots lidou com esse aspecto melhor do que Transformers. Enquanto na série da Hasbro personagens femininas só apareceriam em seu segundo ano*, Go-bots contava com mulheres desde o princípio. Isso incluía a segunda em comando dos Renegados, a maníaca Crasher, e a batedora dos guardiões, Small Foot.
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| E punhos que soltam lasers. |
A série foi produzida pela Hannah Barbera, e contava com uma animação tão oscilante quanto a média da época: ora a animação era razoável, ora era sofrível. Mas ao contrário das produções da Rankin Bass e da Sunbow, o método era o clássico da Hannah Barbera: animações recicladas, fundos em loop, efeitos sonoros como substituto para animação de fato...* Continuidade era inexistente, como era o padrão nos anos 80. Como os brinquedos não tinham acessórios, os robôs disparavam lasers dos punhos. A série durou apenas dois anos, cancelada após 65 episódios - uma única temporada de sindicação.
Os brinquedos
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| Jeeper Creeper, um Go-Bot normal. |
Lançados em 1983, os bonecos de Go-bots eram consideravelmente mais simples que a parte famosa de sua contraparte da Hasbro. De tamanho similar aos minibots de Transformers, a linha original contava com mais partes em metal e transformações mais complexas do que Transformers do mesmo tamanho - mas eram muito limitados em comparação com os bonecos maiores da concorrência - com os quais eram inevitavelmente comparados.
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| Cy Kill, outro go-bot básico. |
Articulação era quase inexistente - normalmente restrita aos braços - e os moldes contavam com poucos detalhes. Como era padrão na época, detalhe tecnológico era dado primariamente por adesivos e aplicações de tinta, parecendo muito mais com “o painel do peito do Darth Vader” do que partes robóticas. Há de se lembrar que a comparação justa dos Go-bots não é com os bonecos maiores de Transformers, mas sim com os minibots. Derivados da linha 600 de Machine Robo (assim chamada porque cada boneco custava 600 ienes), os Go-bots originais eram bonecos econômicos e simples, mas que não pecavam em termos de forma de veículo.
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| Monsterous, um combiner Go-bot. |
Em alguns aspectos, os Gobots eram superiores aos seus concorrentes mais bem sucedidos. Enquanto os combiners e vários bonecos maiores de transformers precisavam de peças separadas para formar a cabeça, os punhos e os pés, conjuntos como Puzzler e Monsterous (Devil Satan Six, no Japão) tinham todas as partes embutidas. A dupla de combiners Grungy e Courageous, por sua vez, serviam como veículos para os bonecos menores. Se por um lado os Go-bots careciam em acessórios, por outro havia maior integração entre eles.
O segundo ano da linha viu o lançamento de alguns bonecos maiores, para competir justamente com os Transformers, os Super Go-Bots. Alguns destes eram moldes novos, como Spay-C, Raizor, Baron von Joy e Bug Bite,com mais detalhes, articulações e transformações mais complexas do que os bonecos menores. Outros eram versões aumentadas em plástico dos bonecos menores - o que os faziam parecer piores em comparação com o restante dos "super go-bots".
A linha também contou com figuras centradas em gimmicks: Os Go-bot Launchers eram duplas de plataforma e veículo voador que se combinavam em um robô só (derivados de outra sublinha de Machine Robo). Ro-Gun era uma arma de espoleta. Os Boomers disparavam bolas. Water Pistol era uma pistola de água. O centro de comando dos Guardiões era em si um robô (e um veículo). Como qualquer linha, teve sua dose de figuras promocionais.
Go-bots fazia um uso muito mais intenso e muito mais envolvido das partes do veículo. Várias figuras tinham vestígios de membros, alguns bonecos tinham parabrisas inteiros servindo como a cabeça, e a maioria das transformações tinham apenas três ou quatro passos.A filosofia de design da linha era mais perceptível nos Super Go-Bots. Essa aparente preguiça é resultado de uma mentalidade totalmente diferente dos Transformers, e que demonstra a engenhosidade dos designers da POPY.
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| Destroyer, o melhor representante da filosofia de design de Go-bots. |
Enquanto a linha da Takara e da Hasbro buscava um robô que virava um veículo, Go-bots pensava diferente: eram veículos que viravam robôs, e isso resultava na estranheza visual da linha, sintetizada em um único design: Destroyer, um tanque renegado que usava a torre do canhão como a cabeça do robô. É fácil desmerecer os Gobots como sendo "preguiçosos" e "substitutos baratos para transformers", mas a linha tinha uma mentalidade diferente, e enquanto a Hasbro bebia de múltiplas linhas de brinquedos pra criar o seu catalogo, a Tonka contava apenas com Machine Robo, o que deu coesão visual para Go-bots.
Alguns moldes de Go-bots foram lançados no Brasil pela Glasslite sob o nome de Mutante. Vários destes foram lançados em cores diferentes das originais (como ocorreu com muitos brinquedos à época), e a linha depois foi assumida pela Mimo, hoje uma gigante do ramo de bonecos “Jumbo”.
Houveram também oito model kits de Go-bots, com designs radicalmente diferentes da linha normal. Produzidos pela Monogram, dois dos kits (Líder Um e Cy-kill) eram reaproveitados de modelos para o anime Genesis Climber Mospeada, lançado nos EUA como parte de Robotech, junto com Macross e Southern Cross. Os kits eram completamente transformáveis e melhor articulados que os bonecos normais, mas não pareciam em nada com suas versões animadas. Os outros seis kits eram menos detalhados e menos articulados que os bonecos normais de seus personagens. ![]() |
| Os modelos pequenos eram disformes. |
A batalha dos Rock Lords.
Em 1986, a Tonka e a Hannah-Barbera tentaram injetar nova vida nos Go-Bots com uma linha nova e um filme, A Batalha dos Rock Lords. O filme introduzia novos personagens, os heróicos Rock Lords liderados por Boulder e os malignos Rock Lords liderados por Magmar. Junto aos dois grupos estavam Jewel Lords, que viravam pedras preciosas, e Fossil Lords (você advinhou: fósseis).
A tentativa fracassou duplamente. O filme era essencialmente um episódio longo de Go-Bots com uma história insignificante e um monte de “encheção de linguiça” para estender a duração. Para piorar, a animação mostrava os heróicos Rock Lords sendo derrotados repetidas vezes e precisando da ajuda dos brinquedos velhos para “salvar o dia”, o que não fez muito para convencer as crianças de que aqueles eram bonecos “legais”. Grande parte do sucesso de uma linha de brinquedos está nos personagens, e quando a linha nova depende da velha para se safar...
Mas a proposta dos bonecos em si foi seu maior problema. Enquanto Transformers começava sua decadência com Headmasters, He-man entrava na era mais insana de sua coleção, os G.I. Joes entravam no reino da ficção científica e o mercado se entupia de linhas das mais variadas, os Rock Lords eram bonecos semi articulados que viravam... pedras. Reaproveitados da linha Ganseki Chojin, os Rock Lords eram maiores e mais detalhados que os Go-Bots, e contavam com acessórios, veículos e animais (os “Narlies”). Mas isso era pouco para compensar o fato de que eles viravam pedras.
A parte lamentável disso é que os Rock Lords contavam com um grau de complexidade que se fazia ausente nas duas linhas (Transformers e Go-bots). Várias figuras contavam com todas as articulações "essenciais" (ombros, cotovelos, joelhos e quadris), mas tudo isso servia para uma... Pedra. Ainda é melhor do que os Infaceables, no entanto (um dia vocês verão o horror que são os Infaceables).
O fim dos Go-bots
Em 1991, a Hasbro adquiriu a Tonka, e com a acquisição os Go-bots desapareceram “de vez”. A linha já havia sido cancelada em 1987, após o fracasso do filme dos Rock Lords. Como os moldes pertenciam a Bandai, Go-bots se tornou uma linha insustentável: por um lado os nomes e a ficção pertenciam a Hasbro, por outro os designs eram da Bandai.
Isso não impediu a Hasbro de reaproveitar os nomes em linhas de Transformers, começando com Transformers Go-Bots em 1995 - uma linha de bonecos menores em escala 1:64 para concorrer com os carros de Hot Wheels e Matchbox. Em 2002, o nome serviu para uma linha de Transformers voltada para crianças menores, Playskool Go-Bots. Mas a absorção de Go-Bots por Transformers se completou em 2004, com o lançamento do pack G1 Go-bots pela Takara, um conjunto de redecos dos minibots de Transformers como personagens de Go-bots, que após um cataclisma dimensional viajaram para a realidade de Transformers. Com esse lançamento, o antes principal competidor virava parte do multiverso de Transformers.
Infelizmente, a Hasbro não demonstrou nenhum interesse em fazer novos designs para os personagens de Go-bots, e embora a Bandai tenha mantido a linha Machine Robo viva, não houve qualquer tentativa de atualizar os moldes velhos. Alguns deles foram relançados na linha Machine Robo Rescue, em 2003 - com pouquíssimas mudanças, como braços mais detalhados e pinos para combinação com os robôs menores da linha. Hoje, a linha vive como Machine Robo Mugenbine, um misto de brinquedo de construção e robôs transformáveis.
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| Mugenbine tem um potencial criativo imenso - se você tiver dezenas de sets para usar. |
**apesar da intenção de Bob Budiansky de incluir mulheres cybertronianas desde o início
**Transformers, por sua vez, contava com animação terceirizada para a Toei, que re-terceirizou para outros estúdios, e roteiros ainda mais tolos que os de Go-bots. A animação podia ser as vezes melhor, mas não significa que algum dos desenhos fosse menos ruim que o outro.












































