quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Um olhar sobre a violência de Genocyber

O/A Epônimo Genocyber: uma arma viva de destruição em massa
A “boa e velha” ultraviolência é uma figura velha em quadrinhos e animação “para adultos”, e o mercado japonês não é exceção. Seja para críticas sociais mordazes, como em Devilman e na obra de autores como Suehiro Maruo e Shintaro Kago, que combinam a violência ao grotesco e o erótico, numa tentativa de apelo aos leitores, percebido em Hokuto no Ken e suas inúmeras cópias. Ou até em uma tentativa de levar ao papel o conceito do inferno, como em Um Panorama do Inferno, de Hideshi Hino, ou no infame Violence Jack, de Go Nagai, não há falta de mangás e animes violentos.


O “boom” da animação para vídeo nos anos 80 e 90 não foi exceção. Pelo contrário, foi terreno fértil para autores exercerem suas afinidades pelo “gorn” sem se preocupar com censura ou padrões para exibição. A mesma época que rendeu obras como Mobile Police Patlabor, Top Wo Nerae! e a brilhante antologia Meikyu Monogatari também rendeu schlockfests como M.D Geist, Angel Cop e perto do seu fim, uma das obras que levou mais longe a violência pela violência em si: Genocyber.



Lançado em 1994, esse OVA de cinco episódios dirigido por Koichi Ohata - do festival de fanservice barato que é Ikki Tousen, e do gorefest que é M.D. Geist II: The Death Force, e escrito por Ohata em parceria com Sho Aikawa, (Martian Sucessor Nadesico, a série de 2003 de Full Metal Alchemist, e o “clássico” A Lenda do Demônio), é o ápice da ultra violência em animação. Poucas obras vão tão longe em sua representação da destruição da forma humana - e poucas o fazem tão desmotivadamente.


Capa da edição americana
Apenas o primeiro episódio do OVA corresponde ao Mangá.
A melhor maneira de descrever Genocyber, tanto o OVA quanto o mangá de Tony Takezaki que serviu de base, é “potencial desperdiçado”. A segunda melhor maneira é “um olhar acrítico no pior da humanidade”. Com uma animação de excelente qualidade, boas ideias para seu cenário e uma trilha sonora memorável, em particular “Genocide”, que já dá ideia do nível da trama pelo seu título, Genocyber poderia ser bom - se todas essas coisas não servissem para detalhar visceralmente violência despropositada, sem piedade, razão ou sentido. Cada boa ideia é gasta em uma narrativa que não vai a lugar nenhum, e mesmo o aspecto que poderia se salvar nesse quadro - a ação - é decepcionante dado a invencibilidade do personagem título.


Ohata quebra uma das regras não escritas que até mesmo o boom dos OVAs dos anos 80 e os filmes de terror trash do mesmo período seguiam: não mostrar crianças sendo mutiladas ou gravemente feridas. Embora não atinja os níveis de misantropia de A serbyan film, há algo profundamente errado em Genocyber. Mas nada em seu discurso implícito parece indicar um módico de crítica social por trás dessa violência. Ao contrário, ela está lá apenas por estar lá.


Episódio 1: Uma nova forma de vida


Elaine and Boy - Genocyber
Elaine e seu amigo: prelúdio para um massacre.
Mas sobre o que é Genocyber? É a história de duas irmãs dotadas de poderes psíquicos, a muda e selvagem Elaine e a hiper inteligente porém aleijada Diana, criadas como parte de um experimento para controlar o “poder oculto da mente o humana”, o “grande vento” de Vajra. A trama abre em Hong Kong, quando Elaine foge de seus “criadores”, e faz amizade com um menino de rua, vítima de uma gangue de adolescentes. Em seu encalço, um trio de mercenários cibernéticos, uma horda de soldados mascarados e sua irmã.

Esse primeiro episódio, “Uma nova forma de vida” é talvez o único realmente digno de nota, apesar de ser o que afunda mais em seu intenso niilismo. Com seus algozes deixando uma trilha de corpos atrás dela, Elaine é morta por sua irmã, mas o poder psíquico das duas cria um novo ser: Genocyber. A nova e monstruosa entidade facilmente destrói os ciborgues, e se recompõe como Elaine. Ao saber que seu amiguinho morreu na destruição que causou, Elaine novamente vira Genocyber e destrói Hong Kong.


Diane - Gencyber
O corpo cibernético de Diana: parte do fascínio visceral
de Ohata com corpos cibernéticos.
A história é simples, e poderia tranquilamente funcionar sem o excesso de violência que marca a série. No entanto, ao invés de desenvolver a conturbada relação entre as irmãs - Diana claramente sendo preterida aos olhos do “pai”, Kenneth Reed - ou a amizade nascente entre Elaine e o menino de rua, Ohata se preocupa mais em mostrar pessoas vivissecadas, crianças sendo molestadas, decapitações, vísceras e cabeças esmagadas. A união das duas mentes na forma de Genocyber remete ao clássico Barom 1, ou ao Ultraman Leos, mas enquanto Barom era a sincronia de duas mentes, em Genocyber é claro que Elaine é a força dominante .

Como dito antes, as cenas de ação são o forte e o fraco da série e esse episódio mostra bem o porquê: belissimamente animadas, elas fazem muito pouco para esconder a total falta de tensão. Genocyber é simplesmente tão poderoso que nada representa qualquer ameaça para ele - e o resultado é tão empolgante quanto uma hipotética luta entre, digamos, o Super Homem e um gorila: visualmente é incrível, mas o resultado é previsível.


Episódio 2 e 3: Ataque do Vajranoide e Guerra Global


A segunda história, composta por dois episódios, ocorre no litoral da fictícia nação mediterrânea do Karain, que secedeu do “governo único mundial”. Temendo que o Karain tenha desenvolvido uma superarma após imagens de Genocyber serem obtidas na região, os EUA enviam o super porta-aviões Alexandria para a região, levando um novo Vajra, o Vajranoide, um robô criado pelo doutor Sakomizu, capaz de controlar o mesmo poder que Genocyber. Desastre acontece quando Elaine,  agora dotada do corpo cibernético da irmã, é levada a bordo e os dois Vajras se encontram.


A parte 2 de Genocyber abre com mais violência gratuita, incluindo uma tomada infame da cabeça de uma criança sendo destruída por tiros de metralhadora. No entanto, ao contrário da parte 1, não dá para dizer que a violência não sirva um propósito: no começo, como statement contra a guerra, e como motivação para Elaine, e posteriormente, como resultado da expansão continua do Vajranoide. Se o primeiro episódio era niilista em sua violência, aqui, ela é visceral e tão predominante que beira o cômico. A gratuidade dela, por sua vez, enfraquece qualquer discurso político ou narrativo que ela deveria fazer.


O Vajrnoide, em seu estado original.
Esses dois episódios sofrem muito de uma “trama idiota”: que depende de personagens serem estúpidos para que as coisas possam acontecer. O Vajranoid surta em seu primeiro voo de combate... e Sakomizu o xinga por “fazê-lo passar vergonha”. Myra, a médica de bordo da Alexandria, adota a menina (Elaine) resgatada por um avião da ONU e dá a ela o mesmo nome de sua filha morta, e ninguém para para questionar a estabilidade emocional da médica. Sakomizu de alguma maneira infere que seu trabalho foi sabotado pela tripulação e decide criar mais um Vajranoide a partir do braço amputado do Genocyber, resultando em desastre quando sua criação passa a absorver o Porta-Aviões em si. A exceção do capitão da Alexandria, nenhum dos personagens parece mentalmente estável, e a exploração de suas neuroses é lamentavelmente abreviada para dar espaço para matança.


Ironicamente, é na ausência do Genocyber que esses dois episódios funcionam melhor. O segundo Vajranoide tem um quê do alienígena de O Enigma de Outro Mundo, e o tom geral de sua infestação da Alexandria faz o episódio parecer um filme de terror. Já na participação do Genocyber, o episódio é inconsistente: o primeiro Vajranoide quase derrota a entidade, mas o segundo (maior, e mais poderoso) é destruído com tanto alarde quanto um abrir de portas. E assim como em Hong Kong, Elaine destrói a capital do Karain.

Parte III: A Lenda da Cidade de Ark de Grande


A última parte de Genocyber pouco tem a ver com as outras duas. Por 100 anos, a humanidade travou uma guerra contra Genocyber, antes das irmãs decidirem que não havia lugar para elas nesse mundo e adormecerem. 200 anos depois, a cidade de Ark de Grande é um dos últimos resquícios de civilização no globo.


Genocyber Stone
O "deus" do culto subterrâneo. 
Nesse mundo, somos introduzidos a Ryu e Mel, recém chegados a megalopole em busca de um cirurgião que possa curar a cegueira de Mel. Ark de Grande é um antro de corrupção e autoritarismo, regida com mão de ferro por Grimson Rockwell. Enquanto Ryu busca os meios de ascensão social para obter tratamento para sua esposa, e se torna presa para manipuladores, a presciente Mel é aliciada por um culto ao fossilizado Genocyber.


A Lenda da Cidade de Ark de Grande não é tão violenta quanto as duas primeiras partes. No lugar da brutalidade física dos episódios anteriores, a violência aqui é política e psicológica. Ark de Grande é um estado policial estratificado, onde qualquer dissidência é punida com tortura ou morte, e o culto subterrâneo ao “deus” Genocyber, embora mais sútil, é tão opressor quanto o governo ditatorial de Rockwell.


Gencoyber Cult Massacre
O fim do culto subterrâneo.
Genocyber entra de fato na história quando o culto é exterminado pelos soldados de Rockwell, e Mel clama para “deus” que destrua essa “cidade maligna”. Desnecessário dizer, Genocyber cumpre o pedido, para depois destruir a última super-arma criada para destruí-lo. Como história isolada, Ark de Grande não é exatamente ruim, mas parece deslocada como parte da série, e a narrativa tem buracos e carências graves a respeito de seus personagens - quanto mais do interim entre Global War e a Lenda de Ark de Grande. A conclusão, no entanto, é esquecível.


Genocyber não é ruim, é só sem razão de ser. Fruto da era de ouro dos OVAs, os cinco episódios tem quase todos os vícios da época, carecendo apenas de cenas de sexo desnecessárias, e desperdiça uma qualidade técnica invejável até para os padrões atuais com um niilismo intenso e uma quantidade de vísceras que dariam inveja em Uziga Waita - não pesquisem esse autor se valorizam sua sanidade.

Se você é fraco do estômago, nem tente assistir Genocyber. Não é como o já citado M.D. Geist ou Hokuto no Ken, em que a violência beira o cômico. Ou como em Riki Oh, em que é tão exagerada que é cômica, sem querer. O gore de Genocyber é doloroso, nojento e extraordinariamente detalhado. No fim das contas, Genocyber serve como um registro de uma época. Apenas entre os anos 80 e 90 uma obra assim poderia ser feita, e ao contrário de outros gorefests de seu tempo, Genocyber conta com uma qualidade de produção excelente, assim como outra obra esquecível mas belissimamente animada, Iczer One, que merece ser lembrada. Mesmo que tenha sido usada para pouco mais que matança desenfreada.

Se dependesse de sua qualidade, Genocyber jamais teria saído do Japão. Mas o americano John O'Donnell, da Central Park Media, optou por trazer o OVA aos EUA como parte da sua linha U.S. Manga Corps. O selo era marcado por produções de qualidade duvidosa e ultra violentas, como M.D. Geist*, pornochanchadas como Project A-Ko, e títulos lançados aleatoriamente, entre os quais os sete primeiros OVAs de Black Jack. Embora O"Donnell tenha trazido algumas obras notórias para os EUA, muitos dos títulos que marcaram o começo da Central Park Media são responsáveis pela percepção negativa da animação Japonesa nos Eua. E foi através da Central Park Media que veio ao Brasil, na extinta TV Manchete, que dedicava todo um bloco de programação a OVAs distribuídos pela empresa de O'Donnell.

*cuja sequência foi produzida pela Central Park Media

Um comentário:

  1. Melhor análise de Genocyber. Sem dúvidas, é um anime com potencial desperdiçado.

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